Eduardo Graça

Coluna

Seu Bunda e a nova do Batali

A coluna de hoje do Segundo Caderno, sobre o político havaiano Bobby Bunda e a dica do supermercado mais italiano de NY:

Pode parecer estranho, mas aí vai, pronto, falei: morro de saudade de campanha eleitoral à brasileira. Pois é. Por aqui, mesmo para quem assina a Globo Internacional, não há propaganda eleitoral. Alívio? Que nada! E a dor de passar mais quatro anos sem ouvir a musiquinha pegajosa do Eymael? À míngua, vinha me divertindo em doses homeopáticas com gente como Alvin Greene, o desempregado (e são tantos) que venceu as primárias democratas para o Senado na Carolina do Sul com uma plataforma de recuperação econômica singular: a produção em massa de bonequinhos fantasiados do próprio político. E com mão de obra 100% de trabalhadores sulistas! Dizem que ele faz parte de um plano secreto dos republicanos para desmoralizar os candidatos governistas. Pode até ser, mas mais uma teoria da conspiração é pouco para fazer frente ao Jorge Bushi, ao Chico Bin Laden e, claro, ao Tiririca do pior do que está não fica.

Mas não é que fica? Pelo menos no Havaí. Pois na província de Oahu, de onde esta coluna está sendo escrita, só dá Bunda. Bobby Bunda, o nome que gruda na cabeça de quem passa pela principal rodovia da ilha, ligação da capital Honolulu com as famosas praias de Waimea e Turtle Beach. É Bunda em outdoors, Bunda atrapalhando a linda vista de Sunset Beach com seus cartazes em sequência, Bunda presente com destaque até mesmo na entrada de Pearl Harbor, sorriso aberto, cara redondíssima, todo prosa. Seu Bunda é um dos candidatos a vice-governador pelo Partido Democrata, o favorito da pujante comunidade filipina no caçula dos estados norte-americanos.

A história é bonita: vovô Bunda chegou no início do século, vindo da região de Iloilo, uma das mais urbanizadas das Filipinas, com o objetivo de ganhar a vida nas então novíssimas fazendas de abacaxi do Havaí. O velho Bunda prosperou e viu seu neto se tornar o primeiro político de origem filipina a presidir o Legislativo de um estado da federação norte-americana.

No entanto, apesar da conquista absoluta e irrefutável das autoestradas de Oahu, a missão de Bunda é complicada: precisa bater seis adversários na primária deste sábado. Não vai ser fácil. De acordo com a mais recente pesquisa, Bunda está em terceiro lugar, 16 pontos atrás do favorito, Brian Schatz. Como se sabe, o mantra de candidato desesperado é lembrar que “pesquisa não ganha eleição”. Pois aqui quem anda repetindo a máxima na TV é o Bunda. Como Deus é brasileiro, mas mora no Havaí, e, garantem por aqui, é surfista há milênios, quem sabe ele não dá uma mãozinha ao Bunda, diminuindo minha crise de abstinência eleitoral?

***

Ele não é um político tradicional, mas adora apertar a mão de seus súditos nos quatro cantos de Nova York. O império de Mario Batali já conta com nove restaurantes na cidade — incluindo aqueles em que sua assinatura aparece como sócio ou consultor. Há ainda as casas de Las Vegas, Los Angeles e do norte do estado de NY, um programa de TV de sucesso, um documentário e meia dúzia de livros. Pois nenhuma de suas invenções — nem o Babbo, o mais inovador italiano da cidade, nem o Otto, com suas pizzas certeiras — se compara àquele que já é o mais transado supermercado da cidade. O Eataly abriu na virada do mês do outro lado do edifício Flatiron, na rua 23 com a Quinta Avenida, e já virou ponto de referência para os muitos foodies, ou gente que se julga especialista em culinária, de Manhattan.

Se você não consegue aquela reserva disputada no Babbo, ou não pretende desembolsar 95 dólares de menu degustação com dois vinhos na casa do Greenwich Village, passe no Eataly. O nome é óbvio e, sim, a inevitável legião de fãs do Midas italiano marca presença zanzando nos cinco mil metros quadrados do espaço, a bordo de seus indefectíveis Crocs coloridos.
Não esmoreça. Respire e escolha um dos nove restaurantes à disposição.

Experimentei dois: o de pizza napolitana — uma fatia deliciosa — e o de massas frescas. Neste, a dica é a lasanha de pesto, saída da cachola do brasileiro Felipe SaintMartin, ex-66 Bistrô, no Rio, e Gramercy Tavern, um velho favorito em NY. Dos deuses. E há ainda as focaccias de Nancy Silverton, o restaurante de frutos do mar comandado por Dave Pasternack, do Esca (o italiano de “Hell’s Kitchen”) e uma imperdível ala dedicada aos vegetarianos.

Mas o maior barato do Eataly é que só come ali quem quer. A preços módicos estão disponíveis molhos caseiros, vinhos, refrigerantes, sucos, massas, queijos e frios vindos dos parceiros piemonteses da última empreitada de Batali.
É a Itália logo ali no Flatiron. Pode-se cozinhar em casa com produtos finos, frescos e baratos sem frescura.

Um ravióli recheado com mortadela, três tipos de carne de porco moída e espinafre, mais o molho de tomate recomendado pelo especialista de lá (detalhe: ele fez questão de dizer que o best-seller da casa, com a marca Batali e o rosto do chef estampados no pote, é mais caro e não tão bom quanto o por ele indicado) viram um jantar a dois por menos de US$ 10.

Ao ser perguntado sobre o diferencial daquele que poderia ser apenas mais um supermercado temático em Nova York, Batali respondeu de bate-pronto: “Tudo o que não queremos é ser didáticos. Não vendemos filosofia. Aqui a gente vende é polenta.” Quando vier por estas bandas, corra e compre a sua antes que acabe. A polenta é ótima.

2 Responses to Seu Bunda e a nova do Batali

  1. Olga disse:

    Que profusão sonora nos nomes de seus personagens: Batali, Babbo e Bunda!!!
    O mais bonito é “Otto”, claro!

    Ontem vi, pelo YTube, a propaganda de Tiririca. Até então, eu defendia seu direito legítimo a concorrer. Mas não é o cidadão Tiririca quem concorre. É o personagem.
    Não que eu leve o Legislativo tão a sério assim. Mas um pouquinho de compostura não custa nada…

    • Eduardo disse:

      E o Bunda, convenhamos, não tinha como fugir da dele. É sobrenome. Agora, e o Tiririca que não pode declarar bens por conta da briga judicial com a ex-mulher? Tudo errado.

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