Eduardo Graça

Coluna

Intolerância

Coluna de hoje no Segundo Caderno d’O Globo:

Da extremidade norte das dunas de Sandy Hook é possível observar com clareza a linha de prédios que desenham o sul da ilha de Manhattan. Daqui se tinha uma vista única das torres gêmeas do World Trade Center. Pois se o verão de 2001 foi o dos ataques terroristas à cidade, o de 2010 é o da polêmica em torno do centro cultural e religioso islâmico em construção a dois blocos do Ground Zero.
O chamado Park 51 foi idealizado pelo imã Feisal Rauf, conhecido por ser um fervoroso defensor do ecumenismo e do diálogo entre religiões.

O projeto inclui a construção de uma mesquita, tem o amparo legal das autoridades municipais e o apoio decidido de Michael Bloomberg. O prefeito, judeu, de uma geração marcada pelo preconceito nos subúrbios ianques — seu pai fez com que o advogado da família, católico praticante, comprasse a primeira casa própria dos Bloomberg — argumenta que a oposição ao Park 51 gira tanto em torno do sacrossanto direito de se fazer o que bem quiser em propriedade privada e regularizada quanto de uma discussão reveladora sobre a famosa capacidade de tolerância dos nova-iorquinos.

Veja bem, dos nova-iorquinos. Não dos americanos. Ninguém duvida que a direita raivosa esteja usando um tema local de forma eleitoreira, com o objetivo de galvanizar ainda mais militantes da distante América Profunda a fim de recuperar a maioria no Congresso nas eleições de novembro e terminar mais cedo, na prática, o governo Obama. Mas o que chama a atenção é a decidida oposição dos nova-iorquinos — 54% dos moradores da cidade, de acordo com as pesquis a s — ao q u e consideram uma provocação “dos agressores”. Algumas vozes mais moderadas parecem genuinamente temer que o Park 51 ofenda as famílias de vítimas dos ataques terroristas. Mas também fala-se na mácula a um “terreno santo”. A revista semanal “Time”, quem diria, usou Nova York, historicamente a capital da tolerância nos EUA, como símbolo de um dos males do país: a islamofobia.

Em Sandy Hook, não se encontram facilmente inocentes do Leblon tal qual imaginados pelo poeta. Deitados sobre a areia escaldante no verão mais quente da cidade desde o século XIX, os novaiorquinos leem suas ainda gordas edições dominicais do “Times” e fazem cara de horror às imagens do protesto nacionalista-cristão do apresentador Glenn Bleck, um tremendo sucesso, organizado na capital da federação. Nos mesmos dia e local em que o pastor Martin Luther King Jr. pronunciou o celebrado discurso em prol dos direitos civis dos negros americanos, o apresentador branquelo, populista, com o corpanzil e o gestual de um Ratinho — depois de um rápido passeio pela J.Crew — conclamou centenas de milhares de cidadãos a “retomar a América” de gente como o tal democrata negro de Chicago.

Tecnicamente, Sandy Hook está em áreas de Nova Jérsei, que ano passado elegeu um governador conservador. Mas sua população dominical, devido à proximidade da metrópole (uma viagem de 40 minutos de barca, saindo do Píer 11, nas proximidades do Battery Park, também a poucas quadras do World Trade Center) é composta majoritariamente por novaiorquinos das mais diversas tribos. As águas são calmas, mas turvas, de um verdemusgo mais escuro do que o desejável para um brasileiro no exílio, e avistam-se ao longe barcos passando lentamente em direção aos movimentados portos do Brooklyn e de Midtown.

Sandy Hook, definitivamente, não é Ipanema. Mas o ser humano não é tão diferente assim na Zona Norte do planeta. Não há postos para os salva-vidas, que ficam encarapitados em cadeiras instaladas na extensa orla, mas os nudistas modernosos se concentram ao lado direito da barraca improvisada na área conhecida como Gannison, os gays ficam à esquerda, perto das dunas, famílias com crianças de todas as idades ainda mais à direita, em North Beach, na área em que é proibido dar uma de Adão e Eva e se tem a tal vista originalíssima de Manhattan.

Como não há acesso wireless e a brisa é tão constante quanto suave, jornais em papel parecem ainda ser a fonte de informação preferida dos banhistas. “Ridículo”, diz uma senhora. “Como é que pode, ele se apropriar do discurso do Reverendo King para passar uma mensagem oposta à g r a n d e c o m u nhão defendida pelo saudoso humanista?”, se indigna o professor da faculdade, esparramado em uma canga improvisada com o vestido de uma ex-namorada. Um casal gay — um inglês naturalizado, o outro nova-iorquino da gema — vê no tamanho da multidão, entre meio milhão e 300 mil pessoas, a se acreditar nos organizadores ou na polícia, um mau presságio em relação à aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pela Suprema Corte, uma batalha cada vez mais próxima em Obamalândia: “O que salva este país são as duas costas. O meio é um horror. Há que se tapar o nariz para seguir em frente.” Ninguém, absolutamente ninguém — e o repórter dublê de colunista, terminada a leitura do “Times”, zanzou por toda a praia amolando incautos com a improvisada enquete — relacionou o discurso cristão-nacionalista de Glenn Beck, o apresentador da Fox News, o ídolo da classe média conservadora e caipira, com a oposição à mesquita no sul da ilha de Manhattan.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O verão de 2010 é aquele que revela uma das facetas mais duras de NY: a da cidade tolerante até a página 2. Toda a narrativa de seu renascimento, após os atentados de 2001, de sua mutação em algo mais humano, menos frio, mais solidário, se perde nas areias de Sandy Hook, neste intenso verão da islamofobia na capital ocidental do planeta.

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