Eduardo Graça

Cultura

Entrevista: Oliver Stone – RS

OLIVER STONE

O diretor discute a música de seus filmes e as mazelas do mundo financeiro

Por Eduardo Graça, de Los Angeles

São onze da manhã em Santa Mônica (Califórnia) e aguardo por Oliver Stone no andar de baixo de uma suíte de um luxuoso hotel à beira-mar. Quando encontro o cineasta, regente de obras contestadoras como Platoon (1986) e JFK (1991), ele parece ávido por dividir a experiência de revisitar outro clássico seu, Wall Street – Poder e Cobiça (1987), o raio x mais exato do mundo yuppie e do mercado financeiro nos anos 80. Em Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme, Michael Douglas está de volta ao papel que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator, o maquiavélico executivo Gordon Gekko, agora às voltas com a maior crise dos Estados Unidos desde a Grande Depressão. “Ele é um personagem singular”, diz Stone. “Quando voltamos ao Distrito Financeiro para filmar, mais de 20 anos após Wall Street, os funcionários da Bolsa e os operadores o tinham como um ícone. Fiquei pensando se não haviam compreendido o filme.”

RS: Você começa o filme nos anos 80, com um Frank Sinatra otimista cantando “Fly Me to the Moon”, e passa para a faixa mais assustadora do disco de David Byrne e Brian Eno (Everything That Happens Will Happen Today, de 2008) lançado no meio da crise financeira global…
Stone: É, “Home” é barra-pesada, não é? Bem, “Fly Me to the Moon” era uma espécie de provocação. Sinatra estava no ostracismo no fim dos anos 70, tinha o peso de ser um artista republicano, fora de moda. E associo a música ao otimismo ingênuo dos anos 50 em Nova York, que casava bem com o personagem interpretado por Charlie Sheen no primeiro filme, um homem que só es tá interessado em dinheiro. Já “Home” reflete o casal vivido por Shia [LaBeouf] e Carey [Mulliele gan, namorados na vida real], mais idealistas. Os dois estão no mercado, mas interessados em ajudar as pessoas – ela com um site que lembra o WikiLeaks, que fiscaliza corruptos no mercado financeiro, ele com um projeto de energia alternativa.

Você vê esta nova geração como mais humanista?
Pode ser que eu esteja errado, mas sim, há mais idealismo. E “Home”, bem, eu usei no filme outras músicas desse disco. Adoro Byrne. O disco saiu no momento em que Wall Street implodiu, e se você prestar atenção às letras… é uma revelação! Usei músicas de Byrne e Eno no primeiro filme, e hoje eles estão mais velhos e sábios, sem estarem envelhecidos. Faz sentido?

Sim, claro. E uma das imagens mais típicas para quem vive em Nova York é a de Byrne zanzando de bicicleta pela cidade. Como o Jacob, personagem do Shia, ele é fã de energia alternativa…
Músicos são artistas que envelhecem sem ficar velhos. Quase sempre. Os invejo. Não sei se os leitores da RS vão chiar comigo, mas “Everything that happens will happen today” me toca hoje ainda mais do que os discos do Talking Heads. Também usei “Sleeping Up”, que é uma música de 12 minutos do “In spite of wishing and wanting”, de 1999, um disco mais obscuro, e é fenomenal.

Vocês conversaram sobre a trilha de Wall Street 2?
Sim, ele veio me ver de bicicleta, como você pode imaginar (risos). Ele é um cara estranho. E prolífico. Ele faz coisas que pouca gente sabe, composições de música medieval, todo o trabalho na gravadora Luaka Bop, mas o problema dele, para a cabeça do americano, é que ele não se fixa em um gênero, está sempre experimentando. Está se lixando para sucesso. Em nossa conversa ele foi tão casual: “Ah, você gostou do disco? Usa, claro!”. Foi assim também com o Wall Street original, em que acabamos usando também “This must be the place (naive melody)”, que fecha o “Speaking in tongues”, o disco dos Heads de 1983, e meus dois Wall Street.

Pois é, a música, meio otimista, meio premonitória, volta a fechar o filme, agora em meio a uma festa de família em que vemos suspeitíssimas bolas de sabão voando pelo céu de Manhattan…
É aquela questão: teremos outra bolha? Voltaremos a sofrer? Acho que sim. Wall Street, para mim, é como um câncer. Mas, ao mesmo tempo, se você leva o mundo financeiro totalmente à sério, você cai em depressão. Não queria nem fazer um livro nem um documentário expondo a podridão de Wall Street. Minha ideia foi fazer uma obra humanista sobre cinco personagens, com Wall Street de fundo.

Uma Wall Street completamente diferente da de duas décadas atrás, não?
Sim, Nova York mudou muito. O ataque terrorista de 2001 (mote para seu filme As Torres Gêmeas) virou a cidade de pernas para o ar. De lá para cá a cidade cresceu, ficou mais rica, mais gananciosa, investiu-se bilhões de dólares para a cidade se reinventar como capital financeira do mundo globalizado. Os prédios ficaram ainda mais belos, a construção não pára, Lower Manhattan, mesmo bairros como o Lower East Side se tornaram locais para milionários. Os ataques terroristas não derrubaram a cidade. Infelizmente, também não mudaram a maneira pela qual se faz negócio no Distritio Financeiro…

Nem mesmo com as regulações impostas pelo governo Obama, retratadas em seu filme?
O sistema financeiro americano sofreu um ataque cardíaco com a bolha do mercado imobiliário. E o problema ainda existe.

Vinte anos depois, Gordon Gekko segue aprontando. Como foi trabalhar com Michael Douglas novamente?
É um grande ator, melhor do que antes. Michael é um réptil, mas um réptil charmoso, sabe? Se você voltar a Wall Street, sua performance em 1987 foi rasa. Rasa! Ele está bem, mas raso. Agora não, ele é um homem que viveu a vida. Ele envelheceu, sofreu, foi à prisão, ele sabe e sente o que é aquilo. Ele teve, como você bem sabe, seus problemas pessoais (seu filho Cameron, 31 anos, cumpre 5 anos de detenção por tráfico de meta-anfetamina em Nova York), e isso aparece na tela.

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