Eduardo Graça

Cultura

Entrevista: Oliver Stone – Versus

Postei ontem a entrevista que saiu na edição de setembro da Rolling Stone. Mas a conversa com Oliver Stone também rendeu um texto, mais político, para a Versus, a revista da UFRJ. Olhem só:

O Jogo de Oliver

ESPECIAL
O cineasta de Platoon se divide entre grandes projetos de Hollywood e trabalhos autorais. O último, o documentário Ao Sul da Fronteira, resulta de seu fascínio pela América Latina.

Em um primeiro momento, a constatação parece óbvia: Oliver Stone, como boa parte de seus pares na indústria cinematográfica norte-americana, pratica com esmero o velho jogo de Hollywood: um projeto para os estúdios, gerando milhões de dólares, outro para ele próprio, investindo em temas que vão fundo no que o ex-recruta da Guerra do Vietnã percebe como os mais emergenciais de seu tempo. O diretor de Nascido em 4 de julho lança no Brasil em setembro – justamente quando completa 64 anos – Wall Street – o dinheiro nunca dorme, em que revisita um dos personagens mais emblemáticos de sua extensa filmografia: Gordon Gekko, o espertalhão do mercado financeiro que garantiu a Michael Douglas seu Oscar de melhor ator em Wall Street, de 1987.

Este ano, Stone também lançou na América do Sul e nas grandes cidades dos EUA o documentário Ao sul da fronteira, uma viagem por Venezuela, Brasil, Paraguai, Bolívia, Equador e Argentina, em que procura apresentar aos americanos, sem o viés atemorizante da Fox e mesmo da CNN, a nova esquerda no poder na América Latina, um continente presente nos sonhos do cineasta desdeSalvador, o martírio de um povo, de 1986 (mesmo ano em que lançou sua obra-prima, Platoon), uma investigação dramática sobre o envolvimento dos EUA na guerra civil salvadorenha.

Com certa dificuldade para ouvir seu interlocutor – “tem como você sentar mais perto, Eduardo?” -, alguns quilos acima do peso ideal e com um brilho no olhar típico de quem acredita estar fazendo algo extremamente original no mundo das repetições cautelosas em que se transformou Hollywood, Stone, bigode preto cuidadosamente aparado, cabelo levemente esvoaçado, conversou com a VERSUS sobre as entranhas do Império, o fascínio pela América do Sul e as novas facetas do mercado financeiro global.

Com vocês, Oliver Stone:

Versus: O senhor acabou de passar uma temporada na América do Sul, lançando Ao sul da fronteira, como foi rever o presidente Lula?
Stone: Foi interessante, especialmente porque conheci a ministra Dilma.

E qual foi a sua impressão?
Que mulher inteligente! Extremamente inteligente. Ela sabe do que está falando. Espero que vença as eleições em outubro, que serão muito, muito difíceis.

O principal candidato da oposição, o ex-governador de São Paulo, José Serra, vem falando extensivamente sobre a América do Sul…
Argh (faz cara de desgosto). É absolutamente nojenta esta história de tentar fazer uma ligação entre as FARCs e a candidatura do PT. Esta coisa toda da Colômbia…

Há também a argumentação de que o governo boliviano é conivente com o tráfico de cocaína e que estamos fazendo filantropia com o Paraguai…
Serra está simplesmente repetindo a política norte-americana para a região. Um dos objetivos de Washington é destruir o Unasur (União de Nações Sul-americanas), eles, definitivamente, não querem que o organismo seja uma realidade na região, não querem ter de lidar com a Unasur.

Quais os objetivos do Departamento de Estado na região?
Os EUA querem destruir a Venezuela, acredito mesmo que, se possível, com uma invasão. Não querem que o Unasur se transforme em um organismo importante, apostam no fracasso em Honduras. É uma política extremamente negativa para a região, com a ajuda dos aliados colombianos.

Recentemente tanto o Washington Post quanto o Miami Herald publicaram editoriais alertando seus leitores para o resultado das eleições brasileiras, que seriam fundamentais para indicar para onde vai a região nos próximos anos e o quão isolado Hugo Chávez ficará…
E eles estão certos, afirmando o óbvio. Os investimentos do Brasil na Venezuela são importantíssimos e dependendo do resultado das eleições os rumos do que eu chamo de revolução pacífica sul-americana serão alterados…

Assisti a Ao sul da fronteira em um cinema de bairro, no velho Greenwich Village e foi impressionante observar a reação da platéia, muita gente emocionada, aplausos no fim da seção. Foi impossível não deixar de notar a quantidade de pessoas de origem latino-americana na audiência…
Adorei isso! Que bom. Porque o filme está sendo ignorado pela imprensa norte-americana. Mas é a natureza deste tipo de projeto: você tem de fazer e pronto.

Qual foi sua motivação para fazer o documentário?
Pensei como um jornalista: tinha uma grande estória em minhas mãos. Descobri que eu também era muitíssimo mal-informado pela imprensa americana sobre a região. Chávez me disse: “Se você não acredita no que eu digo, saia da Venezuela e vá conhecer a realidade de meus vizinhos”. E eu fui! Fiz seis documentários com meu produtor, Fernando Sulichin, dois deles sobre Fidel Castro, e Salvador, o martírio de um povo, uma ficção baseada em fatos reais. Então, meu interesse pela América Latina é algo concreto, já tem história. Mas, claro, não é meu único interesse. Fernando é argentino e ele foi quem disse que eu precisava ver o que acontecia em seu continente. E o documentário é isso: uma introdução à nova realidade daqueles países.

E os líderes que o senhor entrevistou são bem diferentes, uns dos outros. Lula não é Chávez, Rafael Correa não é Evo Morales, os Kirchner não são o presidente Lugo…
Sim, são figuras únicas, não tenho dúvida disso, e mergulhadas em realidades específicas, mas todos, creio, trabalham com um mesmo conceito: independência dos EUA. E também manter os recursos de seus países para uso de suas populações, o que é, embora não pareça, uma ideia radical nos dias de hoje.

Também é interessante a ênfase que o senhor deu ao fato de, pela primeira vez na História da região, os governantes se parecem com os governados…
Isso é importantíssimo.

Não é interessante pensar que aqui nos EUA o processo é o posto? Pense nas eleições de meio-termo para a renovação do Congresso e dos governos de estado em novembro. Nunca se teve um número tão grande de milionários usando seus próprios fundos para se elegerem em cargos públicos. Nova York já é governada pelo homem mais rico da cidade e na Califórnia as duas candidatas majoritárias do Partido Republicano, para o senado e para o governo do estado, são milionárias. O mesmo acontece em Connecticut…
Isso é o que Wall Street, a instituição, faz! Vamos falar agora sobre meu outro filme? (risos)

Sim, claro! Esta volta ao templo financeiro em um momento de ruína é, no mínimo, uma provocação, não?
Vejo mais como uma tentativa de olhar de forma humanista para a Wall Street do século XXI a partir das histórias comuns de cinco personagens, um deles já conhecido do público. O público não está de fato interessado em derivativos e no vocabulário confuso do mercado financeiro, mas é possível perceber o que de fato aconteceu em 2008 seguindo esta dança dos cinco personagens, como as relações entre eles, de um modo ou de outro, a maneira como eles reagiram à Grande Recessão de nossos tempos, nos falam sobre os dias de hoje.

Ao sul da fronteira e Wall Street – o dinheiro nunca dorme terminam com uma mensagem de esperança sobre os EUA. Que um novo governo possa fazer diferença, tanto em relação aos vizinhos do sul quanto ao universo do mercado financeiro, encerrando a fase de total desregulamentação do setor…
Sim, você tem razão, eu sou este ser cheio de esperança. Sou assim mesmo, o que posso fazer? É minha natureza. Lembro que fui criticado no Wall Street original porque o personagem vivido pelo Charlie Sheen se regenera, percebe seus erros e vai parar na cadeia. Ou seja, há esperança, mesmo naquele mundo. Se você lê o jornal com atenção todos os dias, só há notícias ruins, pouca esperança, você tem vontade de cometer um suicídio por dia, se isso fosse possível. Eu sigo acreditando ser fundamental acreditar que precisamos sobreviver a estes tempos difíceis. Em O dinheiro nunca dorme o banqueiro vivido por Josh Brolin vai para a cadeia. Há sim esperança neste mundo sórdido em que vivemos.

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