Eduardo Graça

Política e Economia

Eleições 2010/EUA: uma análise sobre a (real) força do Tea Party

Candidata de grupo xenófobo é destaque na campanha dos EUA
Eduardo Graça

Um mês depois das eleições presidenciais brasileiras será a vez dos americanos irem às urnas. No dia 4 de novembro, a Casa dos Representantes e boa parte do Senado serão renovados, além dos legislativos estaduais e dos governos da maioria dos Estados da federação. E o resultado das primárias dos dois principais partidos, que terminaram há poucos dias, mostrou que é a hora do chá na política da maior economia do planeta.

Ninguém representou melhor o período pré-eleitoral do que uma certa Christine O’Donnell. Apoiada pelo movimento Tea Party – cujo nome é uma alusão aos colonos de Boston em revolta contra as taxas cobradas pela coroa inglesa sobre o produto, um dos estopins da Revolução de Independência Americana no fim do século XVIII – ela derrotou o veterano deputado Mike Castle, candidato da cúpula do partido na disputa por uma vaga no Senado em Delaware. A cadeira tem peso simbólico, já que foi ocupada nas últimas três décadas pelo vice-presidente Joe Biden.

Analistas de todos os espectros concordam que, por um lado, a emergência de O’Donnell reflete a ocupação do Partido Republicano por uma militância aguerrida e anti-Washington. Por outro, o radicalismo e a inexperiência de lideranças como a ex-governadora Sarah Palin (principal apoiadora em âmbito nacional da desconhecida O’Donnell), o apresentador de TV Glenn Beck e a deputada ultra-conservadora Michele Bachman, podem levar a uma repetição das eleições de 2008, com derrota na reta final, no momento em que a oposição teria tudo para dar o troco nos democratas, abalados pelo desemprego recorde, os riscos de uma nova recessão e um primeiro mandatário visto pela população como “pouco presidencial”.

“Foi um desastre. Agora não vamos conseguir mais a maioria no Senado. Duvido que O’Donnel vença as eleições do dia 4″. A declaração foi de ninguém menos do que Karl Rove, o oráculo da direita, estrategista das duas vitórias nacionais de George W. Bush, ainda na terça-feira, sob o impacto da vitória-surpresa da candidata do Tea Party. Pressionado por lideranças republicanas, Rove tentou emendar um dia depois, dizendo que “obviamente” irá apóia-la. Palin saiu em defesa da pupila dizendo que “o problema do establishment do Partido Republicano é que eles de fato não acreditam que a Christine possa vencer a eleição. Eles não estão entendendo o que está acontecendo”, disse.

A emergência da direita radical
Mas, afinal, o que está acontecendo na política americana? Christine O’Donnel, 41 anos, cabelos negros, atraente, óculos de bibliotecária, não é uma nova Sarah Palin. Ela não tem experiência alguma na administração pública (Sarah era governadora de primeira viagem e prefeita de uma cidade nos grotões do Alasca; além disso, havia lidado com a direção regional do Partido Republicano durante quase uma década) e atribui, erroneamente e a seu bel-prazer, frases de efeito a personalidades escolhidas a dedo. Para celebrar a vitória de terça-feira ela saiu-se com um “tirania é quando o povo tem medo de seu governo”, batendo no governo Obama, usando como autor ninguém menos do que Thomas Jefferson, de cuja mente as tais palavras, em tal ordem, jamais saíram.

“Nossa vitória é resultado de uma causa, mais do que de uma campanha eleitoral. E nossa causa é tomar de volta a América, que é nossa”, continuou O’Donnell. Em sua declaração de vitória está o núcleo de um movimento que não surgiu da candidatura Palin e sim de seu rival à direita em 2008, o deputado texano Ron Paul, cujo filho, Rand, é o favorito para se tornar o novo senador de Kentucky, em outra candidatura-surpresa, contra o aparato Republicano.

O Tea Party é xenófobo, contrário a qualquer reforma da política de imigração, tem ojeriza à reforma da Saúde Pública introduzida pelo governo Obama e rejeita a interferência do governo em setores estratégicos como economia e educação. É uma evolução do libertarianismo de Ron Paul, acrescido dos conservadores sociais representados por nomes como Palin e o senador Jim DeMint, contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à Teoria da Evolução, à pesquisa com células-tronco e ao direito ao aborto. Rand Paul, que lidera as pesquisas no Kentucky com 54% das intenções de voto, contra 39% de seu adversário democrata, chegou a ponderar sobre os “exageros” dos Direitos Civis concedidos aos negros em 1964, no governo Lyndon Johnson.

O’Donnell é a dose de mel a ser acrescida na xícara de chá da direita populista. Antes dela os tea-parties conseguiram virar de cabeça para baixo as eleições para o Senado do Utah, da Flórida, do Alasca, de Nevada, do Colorado e do Kentucky, além do governo de Nova York. Seus candidatos lideram as pesquisas nos quatro Estados mais conservadores desta lista, mas os democratas viraram o jogo e estão à frente por larga margem no Delaware de O’Donnell e, por pouco, no Colorado e em Nevada. Daí o desespero de Rove. Os democratas contam com 49 cadeiras seguras na Câmara Alta, a mais importante do Legislativo, os republicanos com 45 e outras seis estão em jogo. Para os democratas, basta vencer em duas e seguirão com a maioria mínima que permitirá ao presidente Obama seguir governando sem um incômodo condomínio republicano. Os republicanos não podem se dar ao luxo de perder em Delaware.

A guerrilha barulhenta e o populismo de direita
“É uma situação muito difícil. O Partido Republicano, a instituição, está preocupada. É como lutar contra uma guerrilha”, disse à Time o professor James Thurber, que comanda o Centro de Estudos Políticos da American University, de Washington. Não importa. O terremoto da direita é, para os analistas, o principal evento político nos EUA das últimas décadas. Michael Scherer ganhou a capa da Time desta semana – em uma imagem icônica, do elefante, símbolo dos Republicanos, com a tromba para fora, engolido por uma imensa xícara de chá – com uma reportagem em que afirma: “em um tempo de insegurança econômica, o Tea Party roubou o coração dos conservadores americanos e pode levar até sete senadores para o Congresso, presos a ideias como um governo mínimo, zero política social e mercados financeiros sem regulação”.

Um dado importante da “revolução conservadora” é que as primárias atraem uma parcela diminuta do eleitorado. Apenas 3% dos eleitores de Delaware compareceram às urnas e escolheram O’Donnell candidata na terça-feira. Números semelhantes garantiram as vitórias de Joe Miller no Alasca e de Sharron Angle em Nevada. Angle é uma das vozes mais barulhentas do chamado movimento nativista, que não acredita na legalidade da presidência Obama, “pois ele não tem uma certidão que prove seu nascimento em solo americano”.

Pouco interessa que Obama tenha nascido no Havaí ou que cientificamente masturbação não cause problemas de saúde. O que interessou, até agora, para os tea-parties, foi mobilizar uma direita ofendida pela “marcha ao socialismo” de Washington, vendida por gente como Beck e Palin 24 horas por dia na Fox. O’Donnel foi uma das fundadoras do grupo Savior’s Alliance for Lifting the Truth (algo como Aliança Libertadora para a Ascenção da Verdade), voltado para a pureza sexual, que, além de condenar a masturbação, defende a verdade científica de que o mundo foi criado, pelo Deus de Moisés e Abraão, e apenas ele, em exatos seis dias.

Ela também não consegue provar de onde vem sua renda – já que não tem trabalho fixo -, deve ao Imposto de Renda americano e, assim como Palin na campanha à vice-presidência em 2008, é acusada de fazer uso pessoal de fundos de campanha. Sua resposta-padrão a estas questões é a de que, ao contrário do senador democrata John Kerry, o homem mais rico do Congresso, “ao menos eu não tenho de me preocupar em que Estado vou ancorar meu iate para pagar menos imposto”. Mais: “este governo que aí está quer pagar para a sua filha fazer um aborto, mas taxa o refrigerante que ela bebe”, em uma referência às políticas anti-obesidade do governo Obama. Para se ter uma idéia do quanto à direita o Partido Republicano se moveu, O’Donnell considera George W. Bush um falso conservador, que aumentou o tamanho do Estado e deu dinheiro público para os bancos.

Reação dos liberais
Karl Rove foi à TV chamar a colega de “maluquete”. “Mas os eleitores que não se enganem. A única possibilidade de o Partido Republicano retomar o controle do Poder Legislativo, e na pratica encurtar o mandato de Obama em dois anos, é se os candidatos do Tea Party vencerem em novembro, com seu extremismo que vai se tornando perigosamente sinônimo de conservadorismo na política americana”, atacou o New York Times, em duro editorial, lembrando que alguns dos candidatos ao Senado defendem a simples extinção de postos federais equivalentes, no Brasil, a ministérios como os da Educação, do Meio-Ambiente e de Minas e Energia. E ricos conservadores, em apenas três dias, já doaram US$1 milhão para a campanha de O’Donnel, contra apenas US$ 125 mil doados a seu rival democrata.

A força da nova direita apareceu esta semana quando o líder da oposição no Congresso, John Boehner, foi crucificado ao afirmar que poderia negociar a proposta de eliminação do abono ao pagamento de impostos pela parcela mais rica da população, herança do governo Bush. A direita o excomungou e ele teve de voltar atrás. Mais importante: dependendo dos resultados do dia 4 de novembro, figuras como O’Donnell poderão influenciar decisivamente a escolha do candidato da direita ungido para enfrentar Barack Obama em 2012. Não por acaso o ex-governador do Massachusetts, Mitt Romney, foi o primeiro presidenciável da direita a anunciar o apoio entusiasmado a O’Donnell.

Nesta sexta-feira os principais nomes da nova direita americana se reuniram no Values Voter Summitt, na capital federal. O’Donnell conclamou os eleitores a comparecerem em massa às urnas para apoiar a “revolução conservadora”. “Eles podem nos chamar de lunáticos, mas nós nos denominamos o povo. Não subestimem a raiva e o desejo de mudança que tomou conta dos eleitores americanos. E nós não estamos querendo tomar de volta nosso país. Nós somos a América”, disse, para delírio da audiência conservadora.

Mas quem sintetizou melhor o momento foi o presidente do grupo American Values, Gary Becker. No mesmo evento, ele comparou o esforço de ir às urnas no dia 4 – às eleições, nos EUA, não são obrigatórias – com a decisão dos passageiros do vôo 93 da United, que se atracaram contra os terroristas da Al-Quaeda e impediram uma tragédia ainda maior no dia 11 de Setembro. “Se você acordar gripado, doente, com medo da chuva, lembre-se dos americanos que decidiram lutar contra os terroristas e mudaram a história”. É essa a direita que pretende tomar o Legislativo americano em 45 dias e a Casa Branca em dois anos. Não deve espantar ninguém, portanto, a decisão dos comediantes Jon Stewart e Stephen Colbert de promover uma marcha contra o Tea Party no próximo dia 30 de outubro em Washington. O título da manifestação política? Marcha pela Sanidade.

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