Eduardo Graça

Coluna

Educação

A coluna de hoje, no Segundo Caderno d’ O Globo:

Educação

Projeção de “À espera do Super-Homem” já para Dilma, Serra e Marina!

Há um documentário importante em cartaz nos cinemas de Nova York. Chama-se “Waiting for Superman” (“À espera do Super-Homem”, em tradução literal), é o talk of the town da semana e deveria ser visto pelos principais candidatos à sucessão de Lula. O tema? A crise do sistema educacional norte-americano. O diretor? David Guggenheim, responsável por “Uma verdade inconveniente”, de 2006, focado na tentativa de Al Gore de educar a população sobre as terríveis consequências do aquecimento global. A reação da audiência? Rostos deprimidos, bocas abertas e mãos juntas aplaudindo a narrativa da decadência de um sistema de educação pública que já foi parte fundamental do sonho americano.

O filme tomou forma quando Guggenheim, um liberal ferrenho, defensor do direito de educação fundamental gratuita para a população, se viu matriculando sua filha em uma escola privada por conta da péssima qualidade da escola pública de seu bairro. “Eu me senti péssimo. Mas vi que não havia princípio político na hora de decidir o futuro de meus filhos”, conta.

O título se resolve já nos primeiros minutos. Um dos super-heróis de Guggenheim é o jovem educador Geoffrey Canada, uma das estrelas do movimento de reforma educacional, que se lembra, quando criança, de cair no choro quando sua mãe lhe disse que o Super-Homem era um personagem de ficção. “Não era como ficar sabendo que o Papai Noel não existia. Era muito pior. O SuperHomem era minha última chance de ser salvo”, diz, referindose à pobreza e à péssima educação que recebia na escola pública do Bronx.

Canada, que é negro, sobreviveu à decadência do ensino público. Encontrou, com muita sorte, super-heróis de carne e osso e anos depois abriu uma escola no Harlem.
Apostou em uma parceria entre iniciativa pública e privada e hoje consegue números extraordinários investindo na qualidade dos professores e no comprometimento das famílias dos alunos. Mas é uma exceção.

O que estarrece no documentário são as estatísticas apresentadas.No Illinois, enquanto um em cada 57 médicos perde sua licença de trabalho por ano, apenas um em 2.500 professores é impossibilitado de dar aula por incompetência profissional. Os professores de Chicago são tão melhores do que os médicos? Não, mas o documentário prova que eles contam com sindicatos mais fortes, que conseguiram assegurar algo como a estabilidade no emprego desfrutada por funcionários públicos brasileiros.

Uma das câmeras de Guggenheim nos leva até uma sala de passar o tempo — não pode haver batismo mais preciso —, em que professores nova-iorquinos acusados de falhas graves batem ponto para receber seus salários, embora impedidos de lecionar, a um custo para os cofres públicos estimado em US$ 65 milhões por ano. Mais: estimase que em 2020 apenas 50 milhões de americanos estarão hábeis a ocupar 123 milhões de vagas de emprego na economia local. O déficit de 70 milhões é resultante direto das “fábricas de desistência”, termo cunhado pelo diretor, em que se transformaram as escolas.

O lado mais emocionante de “À espera do Super-Homem”, no entanto, se revela na escolha de seus protagonistas: cinco crianças, pobres ou de classe média, aguardando uma loteria que pode mudar suas vidas para sempre. Como se pode contar nos dedos as boas escolas públicas das principais metrópoles (e, a partir dos anos 80, também as do subúrbio), a seleção final é feita por sorteio. Logo nos percebemos torcendo, das poltronas, por Anthony, Francisco, Bianca, Daisy e Emily. Afinal, acabamos de ser educados sobre a importância daquele momento: Guggenheim nos mostra que a possibilidade de um melhor futuro para os cinco está intrinsecamente ligada ao resultado da loteria.

***
E o Brasil com isso? Por aqui, o eleitor-plateia se escandaliza ao perceber que a economia mais rica do planeta legou à sorte o destino de suas crianças. No Brasil, enquanto o tema principal da campanha eleitoral, para o que se convencionou chamar de opinião pública, é uma virtual ameaça à liberdade de imprensa e à democracia não sustentadas pelos fatos, pouco ou nada se falou das mazelas da educação. A BBC, o “Guardian”, o “New York Times”, entre outros, dedicaram espaço nas últimas semanas ao que acreditam ser a pedra no sapato do desenvolvimento brasileiro: o péssimo sistema educacional do país, empecilho maior para uma mobilidade social ainda mais intensa do que a observada na Era Lula, fundamental para o contínuo decréscimo da desigualdade social. Todos criticaram tanto a falta de ideias novas apresentadas pelos principais candidatos à presidência quanto o descaso pelo tema.

“À espera do Super-Homem”, brincando com seu próprio título, não oferece soluções milagrosas, mas estimula a sociedade civil a tomar para si a tarefa de melhorar a qualidade do ensino, especialmente para os que jamais poderão arcar com as altas mensalidades de colégios privados. Um país que não pode se orgulhar de seu sistema público de educação, diz Guggenheim, está fadado a se tornar uma nação composta por “idiotas americanos”, uma referência ao hit do grupo Green Day, que poderia, infelizmente, ser traduzido para a realidade brasileira sem muito esforço. Projeção de “À espera de SuperHomem” já para Dilma, Serra e Marina!

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