Eduardo Graça

Política e Economia

E colonialismo virou ‘governança global’…

Impressionante a coluna dominical de Thomas Friedman. O homem, que entrevistei para o Valor Econômico, escreve para falar do lançamento de The frugal superpower: America’s global leadership in a cash-strapped era, de seu amigo Michael Mandelbaum, especialista em política externa da Universidade Johns Hopkins. Friedman já diz a que veio no começo do texto, afirmando que “seus amigos europeus não precisam mais se preocupar com um mundo dominado pelo poder ianque”. Diz que, hoje, os EUA não teriam dinheiro “nem para invadir Granada”, como fizeram em 1983, então amedrontados pela “expansão do socialismo” no Caribe. Invasão esta que rendeu votos para a reeleição, um mês depois do desembarque das tropas americanas na ilha, de Ronald Reagan.

O apóstolo mais destacado do velho neo-liberalismo na grande imprensa de cá segue dizendo que a inflexão do poder norte-americano pode até ser comparada à queda do Império Britânico, mas, citando Mandelbaum, pondera que, “quando a Inglaterra não pôde mais garantir a governança global, os EUA tomaram seu lugar”. Mais: “Nenhum país hoje estaria pronto para substituir Washington em tal tarefa. Portanto, o potencial de deterioração da paz internacional e da prosperidade é bem maior agora do que no Entre-Guerras do século XX”.

Paz e prosperidade internacional? Aonde mesmo, cara-pálida? Em Bagdá? Na Somália? Na Coréia? Na Palestina? De que mundo falam Mandelbaum e Friedman? De um, nas palavras do colunista “que viu a política externa norte-americana ter como méritos principais a defesa do livre-comércio e a contenção do terrorismo, beneficiando muitas outras nações além dos EUA, transformando-se na força vital para a governança global nos últimos 70 anos”.

O que o texto revela de mais interessante é a dificuldade de parte da inteligência norte-americana de aceitar a inevitável diminuição de importância de Washington no tabuleiro mundial. Friedman ecoa este “receio da barbárie”, que subsitituiria as conquistas da grande civilização americana.

Escreve que a Europa segue rica, porém cada vez mais fracote. Que a China ainda é pobre se considerarmos a riqueza per capita. E que a Rússia, bêbada de petróleo, pode até causar problemas, mas não expandir seu poder.

A difícil lição que os EUA estão aprendendo, acredita Freidman, é a de que “você até pode encontrar um caminho para a prosperidade a curto prazo, no atual esquema de crescimento através da política econômica do déficit, baseada nos empréstimos chineses. Mas este modelo não serve para a manutenção de poder geo-político”..

Ora, conclui, a partir da cartilha de Mandelbaum: “para que o mundo não fique mais perigoso e desordenado” é preciso investir no crescimento através da re-industrialização dos EUA (!!!!), estabelecer prioridades mais claras (o Império não poderá mais atuar no Iraque e no Afeganistão ao mesmo tempo) e aumentar a taxação do petróleo para enfraquecer “nossos inimigos”.

É a velha retórica liberal-intervencionista que levou muitas cabeças coroadas do liberalismo ianque a apoiar a invasão do Iraque nos primórdios do governo Bush II. E que agora incrementa a coalizão anti-Obama, visto como um presidente “fraco”, na linha de Carter. E que ignora a possibilidade de um mundo multilateral, com a modificação da ordem mundial, de forma civilizada, com a reforma de organismos como a ONU, o Banco Mundial e o Bird.

2 Responses to E colonialismo virou ‘governança global’…

  1. Olga disse:

    Os caras são os reis da reescrevinhação, né? Continuam falando a mesma coisa com uma nova roupagem. Sofismando e andando e seguindo a canção.
    E eu só me lembro de uma musiquinha antiga dos Paralamas – acho que era deles. Que falava assim: “qual é seu guarda? que papo careta! Tô só tirando chinfra com a minha lambreta…”

    • Eduardo disse:

      O pior são os boçais que começam a repetir o termo como se fosse a invenção da pólvora. A musiquinha era dos meninos sim, do primeiro disco, se não me engano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>