Eduardo Graça

Comentários e Dicas

O “Livro Verde” da segregação nos EUA

Há uma bela reportagem cultural hoje na capa do caderno de Artes do NYT. A repórter Celia McGee recupera uma das mais vergonhosas páginas da história da política segregacionista dos EUA com a redescoberta do chamado “Livro Verde”, que, de 1936 a 1964 era religiosamente usado por negros norte-americanos como um guia turístico e de segurança pessoal. Uma família negra que viajasse de férias para Atlanta tinha, por exemplo, apenas cinco opções seguras de hotéis para a passar uma noite na cidade em 1949. Em Cheyenne, no Wyoming, apenas o Barbecue Inn aceitava negros nesta mesma época.

O guia foi criado por um empregado dos Correios, Victor H. Green, que vivia no Harlem, aqui em NYC, depois de passar por seguidas humilhações no hipoteticamente menos racista norte do país. O título completo do Livro Verde é emblemático: “The Negro Motorist Green Book: an International Travel Guide”.

Sua derradeira edição coincide com a aprovação das leis de direitos civis dos negros pelo governo Lyndon Johnson. Com um presidente negro na Casa Branca, o “Livro Verde” agora é tema de uma peça, escrita pelo escritor Calvin Alexander Ramsey, 60 anos, negro da Geórgia, e de um livro infantil, saído da mente de Carolrhoda Books, com ilustrações de Floyd Cooper, premiado por seu trabalho voltado para a literatura infantil.

Calvin lembra que, para evitar qualquer problema, quando seus pais saíam de férias com a família, quase sempre uma viagem demorada da Carolina do Norte para Baltimore, o almoço era traçado no carro, sanduíches preparados em casa por sua mãe.

“Assim não precisávamos nos preocupar com a probabilidade de não sermos serividos em algum restaurante no caminho”, conta.

Líder da luta pelos direitos civis dos negros americanos, Julian Bond conta que seu pai, o primeiro negro a comandar a Lincoln University, no estado da Pensilvânia, usava o Livro Verde não como um “guia do que há de melhor nas regiões a serem visitadas”, mas “uma espécie de manual de sobreviência, mostrando se havia ao menos um restaurante disposto a nos atender”.

Historiadores atentam para o fato de muitas cidades do sul dos EUA contarem com leis locais de exclusão, determinando que negros teriam de sair dos limites do município “antes de a noite cair”.

O guia de Victor Green, que inicialmente oferecia endereços apenas nas áreas metropolitanas de NYC e Chicago, já contava, nos anos 40, com endereços em Bermuda, México e Canadá. As edições anuais eram de 15 mil exemplares e o guia podia ser comprado nos postos de gasolina da Esso.

A bela reportagem pode ser lida aqui.

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