Eduardo Graça

Entrevistas

Entrevista: Marcelo M. Suarez-Orozco

Analista não acredita que Obama consiga reforma da imigração

Eduardo Graça
Direto de Nova York, para o TERRA

O debate em torno da imigração nos EUA, revivido na batalha jurídica em torno da nova lei proposta pelo governo do Arizona, que permite à polícia questionar cidadãos a partir de seu perfil étnico, subiu de tom recentemente quando líderes republicanos decidiram lutar contra o direito de cidadania de filhos de imigrantes não-documentados nascidos no país. De acordo com a 14ª emenda da Constituição dos EUA, instituída há mais de 140 anos, durante a chamada Reconstrução do Sul do depois da Guerra Civil, toda pessoa nascida em solo americano é automaticamente considerada cidadã do país, independentemente da situação de seus pais.

A radicalização do debate pela direita e a luta pela cidadania dos cerca de 12 milhões de imigrantes não-documentados nos EUA, inclusive brasileiros, é analisada, em entrevista exclusiva ao Terra, por Marcelo M. Suarez-Orozco, professor e um dos diretores do Centro de Estudos para Imigração da Universidade de Nova York (NYU), eleito para a Academia Norte-Americana de Educação em 2004 e autor de vários livros sobre o tema. “Estou pessimista. Não acredito que o presidente Obama terá força para negociar uma reforma nos próximos anos”, afirma ele. “Isso é mais uma agitação do que algo que vai se transformar em fato político.”

Veja abaixo os pontos mais importantes da conversa, em que o acadêmico aborda o papel da recessão americana no acirramento do sentimento anti-imigrante nos EUA:

Um senador republicano moderado como Lindsey Graham, da Carolina do Sul, saiu esta semana em defesa de uma nova interpretação da Constituição americana, negando o direito de cidadania dos filhos de imigrantes não-documentados. Isto reflete o ponto a que chegamos na discussão sobre a imigração nos EUA?
É muito improvável que uma emenda à Constituição (que precisa de dois terços da aprovação do Congresso) passe neste sentido. Esta emenda é uma das mais importantes da Constituição americana, é resultado da Guerra Civil e para ser alterada ainda teria de ser aprovada em âmbito estadual. Isso é mais uma agitação do que algo que vai se transformar em fato político.

Mas o fato de políticos de centro-direita apoiarem medidas tão radicais não é um sintoma de uma radicalização do debate sobre a imigração?
Sim. Hoje os EUA abrigam cerca de 20% dos imigrantes do planeta, o maior número jamais registrado na história deste país. E cerca de 30% dos imigrantes nos EUA não são documentados. Estima-se que 4 milhões de crianças nasceram aqui de pais imigrantes não-documentados. Claramente, é um sistema falho, que não funciona, mas a discussão sobre a revisão constitucional é como tentar matar um mosquito com uma bazuca.

Mas o senhor vê alguma possibilidade de uma discussão séria sobre a questão da reforma da imigração nos EUA nesta legislatura?
Não. O projeto de reforma da imigração está morto nesta legislatura. O presidente Obama não só não conta com interlocutores no Partido Republicano como perdeu congressistas democratas. Digo mais: nem a próxima legislatura, cujos congressistas serão eleitos agora em novembro, terá coragem de passar legislação para uma reforma mais do que necessária do sistema de imigração norte-americano. Aliás, por isso mesmo os republicanos começam a pressionar com a reforma constitucional.

Com que objetivo?
O simples objetivo de manter viva a discussão sobre um problema que não vai ser resolvido. Até chegarmos ao ponto em que uma resolução apresentada por democratas e republicanos surja no horizonte, veremos muitos jogos cênicos, muita fumaça e espelhos, nada sério. Todos eles sabem muito bem o que é necessário para avançarmos nesta questão.

O que é necessário exatamente?
É preciso criar um caminho para regularizar a situação dos 12 milhões de imigrantes não-documentados. Eles fazem parte de facto desta sociedade, ainda que não legalmente. Eles são também os brasileiros de Framingham, Newark, Danbury e Flórida, por exemplo. Todo mundo sabe que eles estão aqui, que eles trabalham duro, que eles são peças da economia americana. Já é tempo de criarmos uma forma para regularizar a situação destes trabalhadores. Dois presidentes, o republicano George W. Bush e o democrata Barack Obama, já deixaram claro, oficialmente, que os EUA não dispõe da infra-estrutura necessária para deportar esta gente toda. Simplesmente não se há capacidade nem dinheiro para tanto.

Mas o renascimento do movimento nativista e o barulho feito pelo Tea Party passa pelo sonho de se punir quem entrou aqui ilegalmente. Ao mesmo tempo, não se precisa ir ao Arizona para encontrar casos de violência contra imigrantes de origem latino-americana, com casos recentes tanto em Long Island quanto em Staten Island, a poucos quilômetros de Manhattan. Se o problema não for resolvido, o senhor acredita que veremos mais e mais casos de ataques a imigrantes não-documentados?

Nos últimos 100 anos, os piores casos de violência contra imigrantes nos EUA tem ocorrido quando há crise econômica. O índice de desemprego é um dos principais indicadores de como a população vê o fenômeno da imigração. Enquanto a economia norte-americana seguir não criando empregos, será politicamente difícil convencer a opinião pública e os congressistas de que é preciso incluir estes 12 milhões de trabalhadores na economia legal do país.

Pois há a sensação de que estes imigrantes estariam competindo pelos benefícios sociais dados aos trabalhadores legais…
Mas, por outro lado, não há qualquer embasamento na tese de que os imigrantes brasileiros não-documentados de Framingham, por exemplo, competem no mercado de trabalho com os habitantes da cidade. Eles estão ocupando um mercado que já não interessa mais para o cidadão legalizado.

O quão importante para este debate é a batalha legal no Arizona, com o governo federal impedindo uma reforma legal considerada por seus críticos de cunho racista?
Ela representa o contexto de uma crescente tentativa de lidar com o problema da entrada de novos imigrantes ilegais no momento em que este fluxo se retrai de forma intensa justamente por conta da recessão. Trata-se de uma ação desesperada e tóxica. É um paradoxo, pois há vinte anos não tínhamos um número tão pequeno de cidadãos ilegais entrando nos EUA pela fronteira com o México. Desde setembro de 2008, com a deflagração da crise em Wall Street, o fluxo de entrada de imigrantes não-documentados vem caindo. É a força da economia que os atrai.

Como o senhor vê a política dos países latino-americanos em relação a seus cidadãos que vivem nos EUA de forma ilegal?

Eles não tem feito um bom trabalho. Nada. Alguns são mais passivos, outros mais pró-ativos, mas não vejo grandes iniciativas em relação a milhões de mexicanos, equatorianos, brasileiros, que sofrem aqui nos EUA, que vivem nas sombras.

O que estas famílias podem fazer para se proteger?
Estes são tempos sombrios aqui nos EUA para trabalhadores não-documentados. Eles são bodes expiatórios. Os crimes contra estes imigrantes tem aumentado exponencialmente e é o momento de as famílias, especialmente as que tem filhos pequenos, manter os olhos bem abertos. A situação em que eles estão é extremamente difícil neste clima. Eles não são bem-vindos.

Qual o papel da academia neste momento?
É o de tentar diminuir a temperatura, de normalizar o problema, de lhe dar perspectiva. De oferecer propostas aos políticos, com números, pesquisas. Mas nossa principal função agora é diminuir a temperatura. É oferecer contexto para uma resolução que fortaleça a democracia.

O senhor acredita que uma vitória dos republicanos nas eleições de meio-termo em novembro, recuperando a Casa dos Representantes e o Senado, complicaria ainda mais a situação dos imigrantes?
A situação ficará cada vez mais complicada, independentemente do resultado das eleições, se seguirmos do jeito que está, sem reforma compreensiva do sistema de imigração, com deportações seguidas, separações de famílias e a intensificação de iniciativas de âmbito estadual ou municipal, dificultando a vida de famílias de imigrantes. E, infelizmente, sou muito pessimista. Mas concordo ser muito difícil que o presidente Obama tenha mais força para iniciar negociações sobre o tema em um Congresso mais republicano.

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