Eduardo Graça

Coluna

O 3D e os Tribunais

A coluna de hoje, n’O GLOBO:

Será que a onda 3D do século XXI vai passar tão rapidamente quanto a de meio século atrás?

Esqueça Los Angeles. O melhor local para se pensar o futuro do cinema americano é Nova York.

Ao menos nesta semana. Até a próxima quinta-feira o Film Forum apresenta Classic 3D, uma série dedicada a filmes em terceira dimensão produzidos nos EUA na década de 50. Coisas como “Disque M para matar”, de Hitchcock; “A mulher de Satã”, com Rita Hayworth; e o musical “Dá-me um beijo”, estrelado por Kathryn Grayson.

O paralelo com o presente é óbvio. “Avatar”, pensado e executado em 3D, é o filme de maior sucesso econômico de todos os tempos. E seis das dez maiores bilheterias deste ano nos EUA foram lançadas no mesmo formato — “Toy Story 3”, “Shrek para sempre”, “Como treinar o seu dragão”, “Meu malvado favorito”, “Alice no País das Maravilhas” e “Fúria de titãs”. Os dois últimos, é verdade, foram convertidos para 3D após finalizados, com o escrachado objetivo de capitalizar a onda. Mais 60 títulos em 3D estão sendo produzidos em Hollywood neste momento, e um deles, “A invenção de Hugo Cabret”, tem direção de Martin Scorsese.

A narrativa-padrão da indústria cinematográfica é a de que o 3D está para o 2D como o cinema falado está para o mudo. Não tem jeito. É o processo evolutivo do meio cinematográfico, lento, gradual e definitivo. Quem me disse isso, entre muitos outros, foi uma atriz do quilate de Sigourney Weaver, com uma trajetória dramática de dar inveja em muita gente.

Mas será mesmo? Podem me chamar de fã arraigado do silêncio. Ou vai ver o problema são os óculos acoplados ao meu par original.

Eles me dão uma dor de cabeça igualzinha à dos poucos filmes, com tecnologia inferior, a que assisti em 3D antes do atual boom.

Ou será que a dor é na carteira? Sim, porque a terceira dimensão de Hollywood é paga por exibidores — que precisam comprar projetores especiais — e público.

Aqui em NY, ingressos para filmes em 3D custam US$ 14. Se o cinemaníaco incluir uma tela IMax na brincadeira, as duas horas e tal não saem por menos de US$ 20.

Se nos anos 50 os grandes estúdios buscavam enfrentar a ameaça da popularização da TV, a inimiga da vez é a internet.

Mas não deixa de ser interessante notar que o primeiro filme de Classic 3D, “Man in the dark”, um noir de Lew Landers, causou risos histéricos quando instrumentos cirúrgicos, uma aranha gigantesca e, claro, um corpo pareciam atacar a plateia.

Gargalhava-se da crueza tecnológica.

Mas saía-se com a certeza de que a ideia de se experimentar o cinema total não é exatamente nova. Ou irrevogável.

Nos anos 50, a onda durou três verões e desapareceu misteriosamente. A maioria dos filmes da série foi lançada posteriormente, e com maior sucesso, em 2D.

Hoje, a tecnologia é outra — em “Shrek” e “Toy Story”, o 3D nos chega a partir de imagens criadas em computador, o mundo real não é sequer o ponto de partida —, mas o fracasso de bilheteria de “Como cães e gatos: a vingança de Kitty Galore” e libelos tão pertinentes quanto divertidos como o artigo do decano Roger Ebert na “Newsweek”, intitulado “Por que odeio 3D (e você também deveria odiar)”, me deixam com uma bidimensional pulga atrás da orelha: será que a onda 3D do século XXI vai passar tão rapidamente quanto a de meio século atrás? Vou pensar nisso vendo, no domingo, na minha sala favorita do Village, “O fantasma da Rua Morgue”, que eu saiba a única reunião de Freud e Poe em 3D.

Pois um roteiro para um belo filme de tribunal, daqueles que Hollywood não faz mais, está dando sopa para produtores nostálgicos. Ninguém precisa de óculos especiais para enxergar a relevância da ação do juiz Vaughn Walker, que considerou inconstitucional a decisão dos eleitores da Califórnia de negar aos casais do mesmo sexo o direito ao casamento.

Os protagonistas são todos interessantíssimos. Os advogados escalados para enfrentar os defensores da Proposição 8 são Ted Olson e David Boies, os ases, em campos opostos, da batalha entre George W. Bush e Al Gore pelo direito de governar os EUA.

Adversários históricos unidos pelo que consideram a grande batalha pelos direitos civis de nossos tempos. Do outro lado, Charles Cooper, um dos mais brilhantes advogados de direito de família do país. O magistrado Walker, dizem as péssimas línguas californianas, é gay.

Mais: virou juiz pelas mãos de Bush pai e enfrentou a oposição, por seu histórico conservador, justamente dos principais grupos gays americanos.

Junte-se um presidente democrata e negro contrário ao casamento entre pessoas de mesmo sexo e o sucesso de bilheteria está garantido.

Adendo importante: os gays americanos não são mais casadoiros do que os demais. É que, aqui, casar no papel tem peso econômico muito maior do que no Brasil, por exemplo, com descontos em mais de 300 impostos. E não há como esquecer que os EUA são o único país a ter uma lei federal, assinada por outro democrata, Bill Clinton, de “defesa do casamento”, definido como instituição reservada para um homem e uma mulher. Uma lei que impede o reconhecimento nacional de uniões realizadas em estados como Massachusetts, Iowa, Connecticut, New Hampshire e Vermont, no distrito de Washington e, agora, na Califórnia.

A decisão do talvez gay juiz Walker é apenas mais um capítulo da novela da luta pelos direitos dos homossexuais nos EUA. O debate só vai terminar quando a Suprema Corte tratar do tema. É bem provável que Hollywood se adiante e finalize o drama antes mesmo de o Judiciário decidir se os homossexuais são, afinal de contas, cidadãos de segunda classe na democracia ianque. Que eu não precise de dois pares de óculos para ver o dramalhão no cinema do meu bairro no Brooklyn.

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