Eduardo Graça

Coluna

Reencontro com as bordas

Cidade-mutante, Nova York oferece, a cada ano, novas opções de passeios, centros de recreação, espaços para shows e recantos pensados meticulosamente para ajudar moradores e visitantes a escaparem da opressão do verão. Há uma semana faz um calor africano na cidade e a saída, para os que não conseguem passar o dia na praia, são os novos points voltados para os interessados em deixar o preto e o cinza de lado e curtir os três meses de delírio tropical na capital do planeta.

Nenhum deles é mais interessante do que Governors Island. Localizada a pouco mais de 1 km ao sul de Manhattan e separada do Brooklyn apenas pelo Buttermilk Channel, foi uma base militar até 1996. Apelidada de Ilha da Fantasia pela revista New York, ela está aberta ao público todos os verões, via barca, em um trajeto de apenas 4 minutos, tanto do terminal marítimo Batttery, em Manhattan, quanto do Fulton, no Brooklyn. E a série The Beach@Governors Island foi eleita pelo New York Post como a melhor da cidade para shows ao ar livre. Por lá já passaram este ano os B-52’s e o Yeasayer. E ainda tem Caribou no dia 16 e M.I.A. no dia 24. Não vou perder. Até o fim da estação marcam presença She&Him, The Morning Benders, Dr.Dog, Grizzly Bear, Josh Ritter, Corinne Bailey Rae e Panda Bear.

Outra sensação deste verão é a área industrial de South Brooklyn, onde acontecem as festas mais legais da cidade, no Bklyn Yard, ao som de DJ’s como o alemão Michael Mayer, e para onde já estão migrando as galerias de arte mais underground da cidade. Um pedaço de Berlim no coração do Brooklyn, Gowanus é cercado por um canal lamacento com águas turvas que, de acordo com o governo Obama, serão despoluídas em uma década. Embora a tarefa pareça hercúlea, os construtores já estão vendendo a região como a Veneza nova-iorquina, barcos já são usados por moradores mais aventureiros e novos edifícios pululam a cada ano, atraindo gente interessada em investir no que parece ser a derradeira terra prometida do mercado imobiliário da cidade.

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Mas lá no primeiro parágrafo eu falei em passar o dia na praia. Praia nas cercanias Nova York. Praia para carioca nenhum botar defeito, com águas cristalinas, areia fofa e temperatura da água não mais fria do que a de Ipanema nos dias em que a corrente marítima não colabora. De carro, se chega aos Hamptons em uma hora. Se preferir o trem, em pouco mais de cinqüenta minutos é possível andar pelas areias de Fire Island, onde carros não entram e as mansões modernistas e bicicletas de todas as cores garantem o charme da extensa ilha localizada no limite setentrional da metrópole. Do outro lado de Manhattan, o felizardo também pode andar calmamente com os pés n’água em Sandy Hook, a jóia do litoral de Nova Jersey, um mundo distante apenas meia-hora do sul da ilha, pegando-se a barca em Battery Park.

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Pois o Battery, onde alguns dos shows mais divertidos deste verão acontecem, na série gratuita River to River (pense em Madeleine Peyroux, Bear in Heaven, Antibalas, Burining Spear), é um dos personagens de Dark Harbor: a luta pela orla de Nova York. O livro, que acaba de sair do forno, é o primeiro do jornalista e fotógrafo Nathan Ward. Lê-se de um fôlego só, como se fosse uma grande reportagem, dessas que a gente não encontra mais com tanta facilidade nas nossas revistas favoritas. Ward lembra que a recuperação das áreas que margeiam o Hudson e o East River, em Manhattan, além de canais como o Gowanus, no Brooklyn, são os maiores atestados da transformação de NY nos últimos sessenta anos. O crime organizado mandava no então maior porto do planeta na década de 40. O Pier 45, ali no fim da Christopher com West Street, no coração do West Village, onde hoje os descolados estendem suas toalhas, se bronzeiam e se refrescam inocentemente nas maquininhas de vapor d’água, era palco de guerras entre gangues, na área então conhecida como waterfront jungle.

O lendário Malcom Mike Johnson, vencedor do prêmio Pulitzer em 1949 pela série de reportagens sobre as docas da cidade, denunciou os crimes, diários, e os bandidos, abusados, exigindo pedágio das embarcações que por ali passavam. Em seis décadas criou-se por ali o Hudson Park e os apartamentos de luxo de Battery Park. No lado leste, um bairro inteiro, Dumbo, surgiu do porto do Brooklyn. Em 1931, o criador do perfil como forma jornalística, Alva Johnston, escreveu na New Yorker uma reportagem sobre a morte de 21 estivadores no então Irishtown, e o texto gira em torno da incapacidade da polícia de encontrar testemunhas. Todos tinham medo de falar.

A cena não poderia ser mais diversa na era de Bloomberg. Um quarto-e-sala nos edifícios de Dumbo – com máquina de lavar em cada unidade, ainda artigo de luxo na cidade – não sai por menos de meio milhão de dólares. Um pouco mais ao norte, a área de Navy Yard se transforma gradualmente em um complexo de estúdios de cinema e casa de festas. Fui a um casamento no ano passado em uma das warehouses reconstruídas metodicamente e descobri, feliz, novas e privilegiadíssimas vistas dos arranha-céus de Manhattan. Rume para o norte e as velhas usinas de açúcar de Williamsburg são reinventadas como condomínios de luxo. Ward está certo: o verão de 2010 em Nova York marca o reencontro definitivo da cidade, através de atividades de lazer e cultura, com suas bordas.

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