Eduardo Graça

Perfis

Os Estrangeiros Americanos

Eduardo Graça, de Nova York, para a Dufry
Fotografia: Victor Affaro

Eles, definitivamente, não são daqui. Mas também já não se sentem mais completos forasteiros nas cidades norte-americanas que escolheram para viver. Lucas Mendes, Lúcia Guimarães, Fernanda Rowlands Bravo e Adriana Araújo em Nova York. Adhemas Batista e Ana Maria Bahiana em Los Angeles. Mabel Feres em São Francisco. Com histórias diferentes, mas a mesma vocação para a descoberta do novo e uma sede de se reinventar que é um dos segredos do sucesso de profissionais expatriados atuando em áreas tão diversas quanto o telejornalismo, o palco, a fotografia e o design.

Lá se vão 42 anos desde que Lucas Mendes, há 17 apresentador do programa de tevê Manhattan Connection, do canal GNT, então um funcionário da editora Bloch, responsável pela revista Manchete, chegou aos EUA. Recebera uma bolsa do World Press Institute. “Éramos 15 jornalistas, de 15 países diferentes, passando quase um ano numa lavagem cerebral extraordinária, visitando quase todos os estados norte-americanos, incluindo estágios no Congresso Nacional e em órgãos da imprensa diária. Lembro que cobri a famosa convenção do Partido Democrata em 1968, com muita pauleira nas ruas durante o dia e fins de noite na casa de Hugh Heffner, o idealizador da Playboy”, conta.

Mendes vivia como colaborador das revistas publicadas pela Bloch, e foi ficando na cidade. “Eles me emprestaram o belo apartamento do grupo na cidade, mas pagavam mal. O tempo foi passando e houve uma época em que cheguei a resistir à cidadania americana por conta de um conflito de identidade. Mas cada vez menos penso em país. Hoje me sinto um pouco como cidadão do mundo. Estou em casa em Nova York, no Rio e no Retiro das Pedras, perto de Belo Horizonte. Já passei por quase 60 países e não sei quantas cidades, mas somente duas me deixaram à vontade: Nova York e o Rio”, revela.

Lúcia Guimarães, que foi colega de Lucas no Connection e hoje tem uma coluna no jornal O Estado de S.Paulo, chegou em Manhattan em 1985. O presidente era Ronald Reagan e a cidade ainda não havia passado pela disneyficação da administração Rudy Giuliani. Mas, ao contrário do jornalista mineiro, ela é direta: “ O meu país é o Brasil. E a barreira da língua foi óbvia no começo, porque estudar inglês longe daqui não é o mesmo que funcionar profissionalmente na cidade. Demorei um ano para ler o New York Times com fluência. O que continua sendo duro é a falta de luz durante sete meses de frio. Agora, Nova York é cosmopolita. Morar aqui não é o mesmo que morar em outras cidades americanas”, diz.

A jornalista, que segue no casting do GNT, acredita que o Brasil mudou radicalmente aos olhos dos americanos nestes 25 anos de NY. “Do país devedor, violento e corrupto, passou ao país desejável, por causa da música e da cultura, afluente e com economia aquecida. A corrupção não dá mais manchete aqui. Agora, começa a outra fase do namoro entre os dois países, quando o encanto inicial é contraposto à realidade como, por exemplo, a insistência de Brasília em ignorar a ilegitimidade do regime iraniano”, diz.

A correspondente da TV Record, Adriana Araújo, chegou à cidade no ano passado e rapidamente descobriu que, por aqui, há sempre algo novo a ser descoberto. “A frase ‘tudo acontece primeiro em Nova York’ é verdadeira. A cidade lança tendências e por isto é tão interessante pra nós, jornalistas. Agora, a Nova York do dia-a-dia é ainda mais interessante. Esta é a minha primeira primavera aqui e estou adorando. Dá pra descobrir uma nova cidade a cada estação”, conta.

Adriana, que como Mendes é mineira, conta que as migrações para Brasília e São Paulo não se comparam à sua aventura ianque. “Agora posso dizer que vivo em qualquer lugar do mundo. Mudar de país é um desafio e tanto. Além do idioma há as diferenças culturais e burocráticas. Cheguei aqui poucos dias antes da morte do Michael Jackson, ou seja, sobrecarregada de trabalho e com uma vida nova para começar – escolher casa, escola, banco. Fiquei perdida no metrô e demorei a entender que não precisava ir ao escritório da imobiliária para pagar aluguel, que eles preferiam tudo pelo Correio mesmo.
Eles me disseram: “não venha mais, não vamos mais receber aqui.” Aceitei, mesmo achando esquisito. Colocava o envelope na caixa sempre pensando: “esse cheque vai sumir… e isso vai me dar um trabalhão”. Nunca sumiu e hoje dou risadas de mim mesma”, conta.

Adriana mora pertinho do Central Park, seu lugar favorito na cidade. “Adoro correr, ler, fazer piquenique por lá. Meu melhor presente de aniversário, no mês passado, foi alugar duas bicicletas e passear durante uma hora e meia com minha filha. Pedalei e pensei como as coisas simples da vida tem um valor incrível. A minha Nova York ideal não está nas lojas de grifes da Quinta Avenida. Só não me animei ainda a botar o biquíni e tomar sol no gramadão como as americanas fazem. Acho que preciso pedalar um pouco mais”, revela.

Do outro lado do East River, a cantora Fernanda Rowlands Bravo aproveita a faceta mais cool da cidade, no Brooklyn. Outra adepta das corridas ao ar livre, é na Ponte de Williamsburg, se exercitando, que ela se sente mais em casa. Carioca, ela se mudou para a cidade depois do casamento com o marido norte-americano, e acredita ter muita sorte por poder recomeçar a vida em um lugar tão interessante. “Nova York me oferece todas as possibilidades. E fazer música brasileira aqui é uma delícia, pois o que não falta é público”, conta, logo depois de se apresentar para uma platéia eclética em um bistrô francês de Williamsburg. No menu, Noel Rosa, Jorge Ben e Tom Jobim, entre outros acepipes. A maior dificuldade é ainda não fazer parte de uma patota. “Quando se vive fora de seu país de origem, é como entrar numa mata selvagem. Tem que ir cortando os galhos para ir abrindo caminho. A parte boa é que tem sempre uma surpresa no meio”, filosofa.

Do outro lado dos EUA, o designer Adhemas Batista, famoso pelas cores vivas de seu trabalho, adotou Los Angeles de corpo e alma. “L.A. é uma cidade grande do interior, bem menos estressante. Tenho dois filhos, de 6 e 8 anos, e queria um lugar com ritmo mais lento”, conta. Assim como Fernanda, a mulher de Adhemas é carioca, e a temperatura amena de Los Angeles pesou na escolha.

Adhemas lembra que chegou na cidade há quatro anos, com muita coragem e nove malas. Ele não esquece o número, pois ali estava toda a mudança da família. “O mais complicado foi a língua. A gente acha que com o inglês de cursos particulares tudo se resolve, mas não entendíamos metade do que os americanos falavam. Tudo vira uma aventura, até mesmo pedir um leite quente no Starbucks foi uma missão quase impossível”, brinca.

Los Angeles também é a cidade em que vive, desde 1987, a jornalista Ana Maria Bahiana, editora da primeira versão da revista Rolling Stone no Brasil e comentarista do canal de TV Telecine. “Sou asmática e para mim era fundamental morar em uma cidade com sol o ano todo. Mas além deste dado, não sabia coisa alguma sobre a cidade. Fiz uma viagem de reconhecimento alguns meses antes de vir de vez, e detestei tudo, de cara. Fiquei num mau humor terrível. Até o dia em que, parada no carro na praia de Will Rogers, em Santa Monica, vi o sol se pondo bem na minha frente e pensei: “Nossa, o sol está indo agora para o Japão! A-go-ra! Para o Japão!” Foi uma epifania. Percebi que tinha que parar de comparar L.A. a outras cidades que conhecia e amava – Rio, Londres, Paris- e começar a aceitá-la pelo que ela era, algo inteiramente novo e inédito na minha vida, pendurada ali, literalmente, do outro lado do meu mundo. Foi aí que me apaixonei por LA”, conta.

Ana lembra que L.A. não é dada como Londres ou Nova York. “ A cidade é uma esfinge, cheia de segredos que só revela com tempo e paciência. É uma descoberta constante”, diz. Uma cidade ampla e sem transporte público de qualidade, como Nova York, L.A. também exige do morador uma habilidade básica, que a jornalista não possuía: saber dirigir um carro. Este foi o grande desafio de Ana. “Aprender a dirigir e, gradualmente, cumprir a curva de aprendizado “na real”, da apreensão ao medo, do medo ao domínio do medo, e daí à imensa liberdade. O carro mudou não apenas meu relacionamento com a cidade, mas com a própria vida. Foi minha segunda epifania. Hoje me considero, modéstia à parte, uma ótima motorista (minha seguradora que o diga!) e uma fanática por carro. Meu próximo passo? Aprender a pilotar uma moto”, revela.

Para Ana, Los Angeles é a cidade que chama de “sua”. “O Rio, meu
querido Rio, se transformou na cidade da minha memória, da minha formação, parte do tecido da minha alma. Em L.A. sinto-me sempre à vontade. As colinas são meu lugar do coração, e Mullholland Drive minha rua favorita. Mas também gosto de pegar a Sunset Boulevard até Will Rogers, para ver o Pacífico e pensar no Sol indo para o Japão”, conta.

Antes de chegar no Japão, o sol, quando muito animado, deixa para trás o famoso fog e dá as caras em São Francisco, a cidade em que vive a fotógrafa Mabel Feres, depois de uma temporada de sete anos em Nova York. “A primeira vez que vi São Francisco foi quando voltei de minha lua-de-mel no Havaí. Depois que meu filho nasceu, resolvi procurar uma qualidade de vida melhor para a família. São Francisco é uma cidade pequena, mas cosmopolita, tranqüila e ao mesmo tempo agitada culturalmente. A integração da cidade com a natureza foi outro fator que levamos em conta. Áreas verdes estão por toda a parte, e é muito fácil fazer pequenas viagens para grandes parques nacionais”, conta.

Mabel, que considera a cobertura, para a revista Época, dos atentados às Torres Gêmeas, sua maior aventura profissional, não sente saudade alguma dos invernos sem fim de Nova York. Mas confessa que, na idealizada São Francisco, ainda acha estranho ir à praia de casaco, sem a chance de nadar na água gélida do Pacífico. “Mas os restaurantes da cidade são tão bons e a natureza tão linda, que a gente esquece”, releva, pensando nos passeios na prainha de Crissy Field, ao lado da famosa Golden Gate. Ela, também, é uma quase-nativa de sua nova morada. Ah, estes estrangeiros!

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