Eduardo Graça

Cultura

Entrevista: William Kennedy

Viajei de trem até Albany para uma gostosa tarde ao lado de um dos maiores escritores norte-americanos, William Kennedy, cuja obra está sendo relançada no Brasil, com carinho, pela Cosac Naify. As imagens são de Victor Affaro, que encarou comigo as quase três horas de viagem com o entusiasmo de sempre. Saiu na edição de agosto da revista Bravo!. O texto original, sem cortes, segue abaixo:

William Kennedy – “Fidel é Um Personagem Fantástico”

Destaque da próxima Festa Literária Internacional de Paraty e com a obra relançada no Brasil, William Kennedy fala de sua paixão por literatura latino-americana e sobre seu novo romance, parte dele ambientado em Cuba
Por Eduardo Graça, de Albany

William Kennedy se lembra de cada detalhe da cena. Havia acabado de chegar em Havana e movimentava o corpo em ritmo lento na cadeira de balanço da casa do amigo Gabriel García Márquez quando o escritor cubano Norberto Fuentes o perguntou, sem mais rodeios: “Você se importaria de sentar naquela poltrona? É que o Comandante está chegando e este é seu lugar favorito”. O autor do celebrado Ciclo de Albany, um dos grandes momentos da literatura norte-americana do século passado, não pensou duas vezes. “Saltei para a cadeira ao lado e nas próximas três horas ficamos ali, conversando com Fidel Castro sobre filmes, livros, política e, claro, Albany”, conta. O líder da Revolução Cubana é um dos personagens do livro que Kennedy termina até setembro, o oitavo por ele produzido cujo cenário principal é a capital do estado de Nova York. Generoso, com um sorriso de menino ao fim de cada causo contado com óbvio prazer, Kennedy cabulou um dia de labuta para conversar com a reportagem da Bravo! em seu escritório na Rua Dove, a poucos passos da sede do governo estadual, onde reinaram nomes como Theodore e Franklin D. Roosevelt, Thomas Dewey, Nelson Rockefeller, Mario Cuomo e Elliot Spitzer.

Kennedy está no melhor dos humores. Aos 82 anos, se maravilha com o lançamento, pela Cosac Naify, de três livros do Ciclo, O Grande jogo de Billy Phelan, Ironweed e Velhos esqueletos. Eles podem ser adquiridos individualmente ou em conjunto, em uma caixa que, de acordo com o escritor, é luxo só. “Somente a Grã-Bretanha me deu este tratamento anteriormente, quando relançaram os sete livros”, comemora.

O vencedor do Prêmio Pulitzer de ficção em 1983 – por Ironweed, que quatro anos depois chegaria ao cinema pela batuta de Hector Babenco, com Jack Nicholson, Meryl Streep e Nathan Lane no elenco – é uma das estrelas da próxima edição da Feira Internacional de Literatura de Paraty (Flip) e está quase tão ansioso quanto sua mulher, Dana, para saber mais da cidade colonial e das discussões literárias no inverno quente dos trópicos. Os amigos Nélida Piñon e Rubem Fonseca estarão por lá? Aquele “monumental escritor paranaense,” Dalton Trevisan, viajaria de Curitiba para o litoral fluminense? Respostas obtidas, Kennedy rememora com carinho sua passagem pelo Brasil na segunda metade dos anos 80, ciceroneado pelos amigos Babenco e Norman Gall, comandante do Instituto Braudel e fala de literatura e política com a energia de um menino.

Com vocês, William Kennedy:

- Quais as memórias mais marcantes de sua viagem ao Brasil?
- Andamos para cima e para baixo no Rio e em São Paulo. Foram tempos bons. Ontem mesmo nos deparamos com uma foto de Nélida, veja a coincidência. E Rubem é uma figura interessantíssima. Ele ainda escreve? Qual a idade dele?
- Ele tem 85 anos e acaba de publicar mais um best-seller, O Seminarista, que conta com um protoganista de passado mais ou menos pio e presente brutal.
- Que maravilha! Só não me conta detalhes importantes do livro, não quero saber nada do final, não me vá estragar a futura leitura, hein?
- O senhor lê em português?
- Não com a mesma facilidade com que leio em espanhol.
- É impossível ignorar a importância da América Latina em sua trajetória. O senhor editava o San Juan Star, em Porto Rico, em 1960, quando se encontrou com Saul Bellow…
- Aquele foi um momento fenomenal para mim, crucial para minha decisão de me tornar escritor. Escrevi uma reportagem sobre Bellow. Ele havia chegado ao enclave norte-americano no Caribe para dar um curso na Universidade de San Juan. Depois da entrevista, deixou em seu escaninho um esboço de romance que andava burilando nas horas vagas. Ele gostou do que leu e me convidou para ser um de seus dez alunos nos oito meses seguintes.
- Era o seu primeiro passeio pelo bosque da ficção?
- Sim. Antes de meu encontro com Bellow havia escrito apenas ensaios e resenhas. Não tinha amigo escritores. A maioria de meus chapas, todos jornalistas, não eram exatamente fãs de literatura, não entendiam patavinas de ficção. O contato com Bellow mudou minha vida.
- Como era a rotina no curso?
- Bellow se dividia entre os estudantes, passando uma tarde por semana, individualmente, com cada pupilo. Conversávamos sobre livros, escritores, líamos trechos do que eu havia produzido, em longos serões regados a café ou vinho. Saul era sempre muito crítico. Dizia, objetivamente: isso não está bom, você está se repetindo, o texto está repleto de gorduras, você está usando mais palavras do que deveria. Vá direto ao ponto, William! Você não está sendo preciso! Ele me forçou a reescrever sentenças inteiras, a prestar atenção no que considerava ser correto. Aprendi que havia uma diferença entre ser contrário por princípio a sentenças longas, o que não sou de forma alguma, e a incluir palavras que simplesmente não pertencem àquela frase. Hoje, garanto a você, não padeço mais do pecado das gorduras extras!
- E Bellow se tornou um entusiasta de sua literatura…
- Ao fim do curso ele revisou os quatro primeiros capítulos de um livro de ficção que jamais publiquei. Nós bem que tentamos encontrar uma editora. Saul escreveu uma carta de apresentação para Phillip Roth e outra para a New Yorker, acompanhadas do manuscrito, mas nada aconteceu. E por um bom tempo os marcos de minha vida literária seriam as negativas que receberia. Fui me movendo de uma rejeição ruim para uma menos pior, até a publicação de The Ink Truck, nove anos depois. Algumas rejeições eu jamais me esqueci. Na revista Atlantic Monthly, por exemplo, o editor não me publicou porque, segundo ele, “eu escrevia com muita facilidade”. A New Yorker foi ainda mais sucinta: “Desculpe-nos, tente novamente”. Eu segui tentando, mas nunca publicaram minhas histórias lá.
- The Ink Truck é uma espécie de filho pródigo, não? É um livro completamente diferente dos demais…
- Sim, ele é, eu diria, um tanto quanto estranho. Costumo deixá-lo de lado, quietinho, no canto dele. Mas ele é o mais influenciado pelo realismo fantástico latino-americano, que me interessou muitíssimo. Acho engraçado, pois até hoje recebo cartas de leitores dizendo ser este o meu livro favorito deles. Para ser justo, preciso fazer a ressalva que estes leitores estão longe de ser a maioria. Mas, curiosamente, quando a editora Penguin resolveu relançar o livro, logo após a explosão de Ironweed, decidi que não mudaria uma linha. Ficou tal como era.
- O senhor é casado há quatro décadas com Dana, uma porto-riquenha criada em Nova York, e foi um dos primeiros intelectuais norte-americanos a chamar a atenção para Gabriel García Márquez…
- E virei especialista em América Latina por conta do meu casamento quando trabalhei no Miami Herald. Imagine, eu não entendia nada da região, mas mergulhei na cultura e na política locais e o fascínio foi só aumentando. Anos depois, pediram que eu fizesse uma resenha de Cem Anos de Solidão, e, como quase todo mundo, tive aquela sensação tão rara de se descobrir uma obra-prima. Enfatizo o quase porque ninguém do New York Times ou da New Yorker se interessou por uma entrevista com Gabo. Mesmo assim, eu e Dana decidimos ir a Barcelona, por conta própria, em 1972, para entrevistá-lo. Fomos jantar na casa dele e ficamos papeando até às duas da manhã. Ficamos amigos fraternos e mantemos uma correspondência mais ou menos assídua desde então.
- É senso comum que sua família literária inclui William Faulkner, com sua Yoknapatawpha imaginária, James Joyce e J.D.Salinger, com os Glass. Mas a Albany dos Phelan também presta tributo ao surrealismo, como os mortos, vivíssimos, que conversam com Francis Phelan em Ironweed. A mitologia kennedyana é um dos aspectos mais ímpares de sua literatura. Não é mero acaso estarmos conversando no quarto em que o gângster Jack Legs Diamond, personagem central do primeiro tomo do Ciclo de Albany, Legs, foi assassinado…
- Não é mesmo! Legs seria vivido no cinema por Mickey Rourke no fim dos anos 80. O diretor seria Francis Ford Coppola, para quem eu já escrevera, em 1983, o roteiro de Cotton Club e para quem estava adaptando Ironweed. Francis queria fazer em seguida o filme sobre Legs. Ele veio a Albany e fizemos uma reunião às quatro da manhã, enquanto comíamos pizza. Ele e o produtor queriam examinar as possíveis locações. Paramos aqui de madrugada e havia uma placa: “à venda”. E pensei: mas por que é que eu não compro esta casa? Dana descobriu quem era o dono, um advogado, e pronto, compramos. A idéia era que a cena do assassinato seria filmada aqui. Acabou virando meu escritório e uma espécie de quartel-general do New York State Writer’s Institute, que fundei dentro da Universidade do Estado de Nova York.
- E por aqui passaram nomes Don De Lillo, Toni Morrison, Norman Mailer, a própria Nélida Piñon. Imagino as boas histórias que o senhor tem para me contar…
- A melhor de todas quem conta é o atual diretor do instituto, Donald W. Faulkner, que viveu aqui nos anos 90. Ele jura de pés juntos que fantasmas andaram zanzando aqui em nossa townhouse. A lâmpada do corredor de cima apagava e acendia à medida em que ele saía e entrava no quarto. Mas tenho cá para mim que era apenas um defeito elétrico. Afinal, há trinta e cinco anos tento estabelecer contato com o fantasma de Jack Legs, sem sucesso algum!
- O senhor falou isso com a expressão mais séria do mundo…
- Sim. E posso lhe garantir: nunca o encontrei. Sonhei várias vezes com ele, mas era sempre uma imagem sem voz. Eram quadros complexos, nada muito direto. Em geral, acordava no meio da noite e escrevia até duas páginas do livro com estes fragmentos oníricos. Creio que vem daí a dimensão surrealista de Legs. Agora, Dana teve mais sorte do que eu. Jack apareceu em um sonho dela. Ele bateu na porta de nossa fazenda, que é onde passamos a maior parte do tempo, pouco mais de vinte minutos de carro daqui, e dizia a ela que havia terminado de ler o livro do Bill. Dava meia-volta em direção à varanda e dizia, animado: “Ele acertou na mosca!.
- Que mensagem boa! Lendo sua obra, no entanto, tem-se a impressão de que o senhor, um descendente de irlandeses criado dentro da Igreja Católica, não é exatamente um místico…
- Você tem razão, para mim todas estas manifestações vieram de minha mente, nada mais do que uma representação de meu desejo de fazer algo novo. É o sub-consciente trabalhando, não tem nada de espiritual. Mas sonhos sempre me interessaram muitíssimo. Na escola secundária, quando descobri os surrealistas, tive uma epifania. Magritte ainda é uma grande influência. E volto a Buñuel o tempo todo. A idéia de tocar o mundo inconsciente, de dar nova vida a certos personagens, a fantasia em si, foram importantes para mim desde o começo. É uma dimensão que eu sempre quis desenvolver em meus romances. Nunca almejei ser um escritor estritamente realista ou naturalista.
- No texto que acompanha o lançamento brasileiro de O Grande jogo de Billy Phelan, Daniel Piza diz que, apesar de Ironweed ter se tornado seu trabalho mais conhecido, o livro de 1978, que gira em torno da noite e da jogatina de uma Albany que não existe mais, seria sua obra-prima. O senhor concorda com o jornalista brasileiro?
- Não sei se Ironweed pode ser considerada melhor ou pior do que Billy Phelan, mas certamente posso dizer que Billy, o personagem, é o meu favorito, seguido de Roscoe (do livro homônimo de 2002, a sétima encarnação do Ciclo de Albany) e de Francis Phelan.
- Como o Billy surgiu?
- Ele foi inspirado em meu tio, um típico hipster da primeira metade do século passado. Um homem que jogava sinuca com maestria, apostava alto nas mesas de jogo, bebia com gosto e jamais trabalhou na vida. Eu o adorava, ele era um bon-vivant, que amava a noite. Foi um segundo pai para mim.
- E Francis é um tipo que, apesar de viver durante a Grande Depressão, pode ser encontrado em qualquer rua de grande cidade dos EUA contemporâneo…
- Quando criei o Francis estava pensando na minha infância, nos anos 30, quando convivi, e muito me impressionei, com os mendigos pelas ruas da cidade. É que a pobreza norte-americana, ao contrário do que pensam muitos brasileiros, é bem real. E há muitos Francis Phelans do lado de lá da janela aqui de casa, neste momento, buscando abrigo para passar a noite depois de mais um dia de busca infrutífera de emprego e comida pelas avenidas da América.
- A Albany dos anos Obama segue sendo um símbolo de corrupção, o Congresso estadual é conhecido como Gaiola de Ouro, os casos de parlamentares afastados por malversação do bem público se avolumam e os dois últimos governadores, Elliot Spitzer, forçado à renúncia em 2008, e David Patterson, com popularidade tão em baixa que não tentará a reeleição em novembro, enfrentaram escândalos sexuais, de abuso de poder e desvio de dinheiro. O que mudou na cidade por você eleita para ambientar as tramas de seus livros?
- Ah, a noite já não é mais a mesma. O centro morreu durante o período em que as cidades norte-americanas se expandiram para o subúrbio. Há um certo revival agora, mas não é a mesma coisa. Hoje, a noite nos saloons remodelados é dos jovens universitários. A Albany dos Phelan ainda sobrevive no Palace Theater, ali na esquina de Clinton com North Pearl. Com 2.844 lugares, era o terceiro maior do planeta em 1931, e certamente um dos mais bonitos, com sua arcada circular e interior modelado no estilo barroco do período Habsburgo. O foyer, em mármore vermelho, é uma atração à parte e foi um dos pontos altos da recuperação histórica de 2002. Outro ponto alto é o bar-restaurante Paradiso.
- Palco de uma das mais icônicas cenas do filme de Babenco, quando Meryl Streep canta para Francis os versos de He’s Me Pal, em uma interpretação dóida..
- E você pode reparar que na primeira mesa, ao lado do palco improvisado na extremidade meridional do restaurante, estamos eu e Dana embevecidos, elogiando a cantora-pedinte em um de seus devaneios mais inspirados.
- A reunião de bebuns e fracassados de origem irlandesa no velho Paradiso cala fundo. A experiência da imigração, fundadora dos EUA, é fundamental para o entendimento de sua obra?
- Sim, é impressionante o número de leitores que me param na rua para dizer, até hoje, que eu certamente estava pensando na família deles quando escrevi Ironweed. Um me marcou especialmente. Ele contou que sua irmã, por conta da história da família, detestava moradores de rua. Simplesmente os odiava. Ele decidiu assistir com ela o DVD do filme de Babenco. No fim, ela chorou e disse que Francis não era, afinal, um sujeito tão desprezível assim. Hoje em dia esta senhora dá dinheiro para os desabrigados e compra garrafas de vinhos para os moradores de rua no Natal. Isso é o que eu chamo de um triunfo, bem real, do meu ofício.
- O senhor conseguiu resolver sua relação com a Irlanda através de seus livros?
- Cresci ouvindo histórias e canções sobre uma Irlanda mítica desde a mais tenra infância. Mas só fui resolver isso viajando ao país de meus ancestrais. Fiquei extremamente emocionado com os vestígios palpáveis da opressão britânica, as gerações marcadas pela Grande Fome, pela impossibilidade de se usar as terras férteis próximas ao rio Shannon, que separa Connachth de Münster e Leinster. Houve mesmo uma política genocida contra os irlandeses.
- Curiosamente, vive-se nos EUA o pavor da imigração mexicana e o estado fronteiriço do Arizona acaba de aprovar uma lei extremamente dura, que permite aos policiais questionar civis de origem latino-americana na rua…
- Isso é terrível. O horror, o horror! Outro dia, vi um cartum em um jornal que trazia a figura de Hitler e seu bigode tinha as formas do estado do Arizona. Creio que o artista foi um pouco extremo, mas esta nova lei de Imigração por lá aprovada permite à polícia agir a partir de um preconceito racial! É injusta e repressiva. Não acredito que ela dure muito. Espero que os boicotes, econômicos e intelectuais, que já começaram, e os quais apóio, mudem a percepção dos poderosos locais. Esta lei precisa caducar.
- O Arizona foi o estado que se recusou, em 1987, a celebrar o feriado nacional em homenagem a Martin Luther King, que é um de seus personagens no livro que está escrevendo neste momento. Fiquei curioso pensando se a decisão de tratar da luta pelos direitos civis e da Revolução Cubana teria a ver com a emergência do primeiro presidente negro dos EUA…
- Sim, você acertou na mosca! Comecei a pensar no livro logo após terminar Roscoe, há oito anos, mas ele ganhou fôlego após a consagração eleitoral e, diria mais, à subseqüente oposição emocional a Barack Obama. Queria falar desta irracionalidade de parte da oposição, como a ala dos que não acreditam que ele tenha nascido nos EUA, tornando sua eleição ilegal. Muito desta hostilidade, vamos ser francos. vem do fato de ele ter a pele negra. Não tenho qualquer dúvida em relação a isso.
- Obama incomoda a direita americana como poucos. Fidel ainda é um estorvo para muitos. Luther King foi assassinado depois de pesar na consciência dos norte-americanos como poucas figuras públicas em idos passados. São inspirações riquíssimas para um livro, não? Este será o derradeiro capítulo do Ciclo de Albany?
- Sim. A trama acontece durante um dia em Albany em 1968. Os protagnoistas são militantes dos direitos civis dos negros na capital nova-iorquina e rebeldes entrincheirados em Sierra Maestra no inverno de 1957, em um flashback narrativo. Naquele ano entrevistei para o Herald alguns dos estudantes anti-comunistas do Directorio Revolucionário, que haviam tenado tomar o Palácio Presidencial de Havana em março de 1957. Fidel ainda era pouco conhecido, o ditador Fulgêncio Batista dizia que ele era uma invenção do povo, que não existia. O livro começa um dia antes da tentativa de deposição de Batista, do golpe frustrado do Palácio. E posso adiantar que Ernest Hemingway aparece como personagem, passei muito tempo na casa dele quando estive em Havana.
- O senhor me disse que deixou em banho-maria uma cena escrita sobre Fidel para conversar conosco…
- Sim, mas não precisa se desculpar! Eu trabalho o tempo todo, em qualquer lugar. Você vai embora e eu vou atacar aquele lap-top ali, você vai ver…
- O senhor não tem uma rotina de trabalho?
- Meu método é simples. Acordo cedo e antes mesmo de tomar banho corro para a frente do computador. Releio o que escrevi no dia anterior e geralmente fico durante uma hora imprimindo, polindo o texto, considerando se o que escrevi de fato funciona. Quando não estou em casa faço isso depois de uma entrevista, de uma palestra, de uma aula, no trem, no avião. Posso escrever, feliz da vida, na parte de trás de um jipe com temperatura de 3 graus negativos. E, obviamente, vou escrever no avião a caminho de Paraty. Ontem de noite, aliás, editei a cena do Fidel. Reli tudo, mas ainda falta alguma coisa.
- O que seria? O senhor pensa na Cuba dos dias de hoje ao voltar à gestação da Revolução?
- Sim, é inevitável. Fico cá pensando na significância de Fidel, o personagem. O que ele fez foi algo tão extraordinário, uma epopéia de sobrevivência, desde os três mil homens vivendo em Siera Maestra, combatendo 10 mil soldados do governo, até a manutenção, durante décadas, da chama da revolução. É um dos personagens mais fascinantes com quem convivi. Mas seu comprometimento com o socialismo real e a decisão de não permitir nenhum avanço moderno, aliás, permita-me aqui uma correção importante, de nenhum avanço capitalista, na sociedade cubana por ele moldada, o bloqueou no tempo. É isso, ele é um personagem que não pode mais se mover. Nem ele nem seu irmão Raúl. E este seria o tempo perfeito para um novo avanço, com Obama em Washington. Eis o paradoxo fundamental da Cuba contemporânea: se Havana se abrir para o investimento norte-americano, para o natural caminho do turismo caribenho, lá se vai a Revolução. E na cabeça de Fidel, Cuba voltará a ser um satélite americano. Este é um homem que dedicou sua vida a impedir este fato histórico. Ele não vai se entregar agora. É o ou não é um personagem fantástico?

Com a concordância desimportante da equipe de reportagem da Bravo!, Kennedy encerra o diálogo. Mas não há como não abrir um sorriso cúmplice, do lado de fora da casa de Jack Legs Diamond, ao se ouvir o barulho dos passos fortes do velho escriba rumando em direção ao quarto em que o gângster foi alvejado de forma fatal. O ruído da cadeira de balanço sendo posicionada em frente ao computador de mesa é a evidência que faltava: mais um capítulo do livro sem nome será cerzido na quieta noite de Albany.

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