Eduardo Graça

Cultura

O mago pop
vai ao espelho

Por Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

A imagem não poderia ser mais exata. A série Auto-Retrato (Estrangulamento) abre Andy Warhol: the Last Decade, a exposição em cartaz no Museu do Brooklyn até 12 de setembro, reunindo pela primeira vez a nata da produção tardia do mago da arte pop. Em cada uma das 10 telas, mãos diversas parecem estrangular o pescoço do artista, sua boca aberta, seus olhos esbugalhados. Desprezado pela crítica, visto mais como personalidade televisiva ou peça de museu do que protagonista da cena contemporânea, Warhol confessou a amigos que muitas vezes duvidava se tinha, de fato, criado algo relevante desde os idos de 68, quando Valerie Solanas tentou assassiná-lo, deixando-o gravemente ferido e com os reflexos menos apurados. Tolice. Vinte e três anos depois de sua morte, Andy Warhol é mais presente na cena artística do que quando desapareceu subitamente aos 58 anos de idade.

Na primeira semana de julho, um comprador anônimo arrematou, em leilão na Christie’s, seu portrait de Elizbeth Taylor, pela bagatela de 10 milhões de dólares. A reunião de entrevistas íntimas dadas ao amigo John Wilcock – fundador tanto do Village Voice quanto, com Warhol, da revista Interview – finalmente chegou às livrarias com a edição de luxo de The autobiography and sex life of Andy Warhol. No lançamento do aguardado livro de arte (apesar do título, uma boutade do cineasta Paul Morrissey, não há referências aos namorados de Andy, tampouco grandes mergulhos biográficos), na Biblioteca Pública de Nova York (NYPL), alguns dos mais interessantes personagens da The Factory, como a jornalista Gretchen Berg, as estrelas do cinema warholiano Bibbie Hansen (mãe do cantor e compositor Beck) e Taylor Mead, e os assistentes pessoais de Warhol, Gerard Malanga e Joseph Freeman, o Little Joey, trocaram com cerca de 200 pessoas experiências e histórias do dia-a-dia com o excêntrico Andy. Outras cem ficaram do lado de fora, impedidas de conferir o happening informal em torno do artista. E, no Brasil, a Editora Globo lança, ainda este mês, Nos Bastidores do pop com Andy Warhol, de Tony Scherman e David Dalton.

Não se pode esquecer que Warhol terminou Silver Liz em 1963 e o período áureo da Factory, a usina de idéias localizada no quinto andar da rua 47 por ele criada, durou de 1962 a 1968. A biografia de Scherman e Dalton, que editou com Warhol a revista Aspen em 1966, termina em 68. Mas a edição original – e limitadíssima – do livro de Wilcock saiu em 1971 e era disputada nos últimos anos a peso de ouro nos sebos da cidade. O editor Christopher Trela, responsável pela reedição de luxo, arrematou sua cópia em 1991 e passou a última década negociando os direitos de 100 imagens produzidas por Harry Shunk (1924-2006), um dos grandes nomes do Novo Realismo na fotografia, cujo arquivo é uma das jóias da Roy Lichtenstein Foundation. E se The autobiography and sex life of Andy Warhol é um painel riquíssimo da cultura pop nova-iorquina dos anos 60 e 70, Andy Warhol: the last decade revela um artista angustiado, experimentando tanto com os limites do abstrato (inclusive em colaborações com o amigo Jean-Marie Basquiat, que morreria um ano depois, em 88, e o italiano Francesco Clemente), quanto explorando suas concepções de religiosidade depois da virada do meio século de vida.

O organizador de The last decade, Joseph D. Ketner II, fez questão de ressaltar no catálogo da exposição a profunda mudança na vida do artista, perceptível em visões díspares de si mesmo. Os auto-retratos desafiadores e um tanto frios dos anos 60 e 70 são substituídos pela explosão catártica das encenações de estrangulamento. Não por acaso, a última parte da exposição é calcada em outros três encontros com o espelho, produzidos um ano antes da morte de Warhol.

A mais respeitada crítica de arte do New York Times, Roberta Smith, considera a exposição especialmente reveladora para os fãs da arte pop. As 45 obras da última década de Warhol escolhidas por Ketner, apresentadas no primeiro e quinto andar do museu, confirmariam, de acordo com Smith, que o artista jamais exorcizou seus demônios. Peruca prateada, óculos escuros, a gola da camisa sempre alta, o personagem passou os últimos anos de vida pintando como se a criação artística fosse um ato de vingança, com um vigor sem precedente em sua carreira. “Quando Warhol morreu, o mundo artístico o considerava uma piada. Lá estava ele, fazendo comerciais na tevê ou aparecendo como personagem da série The Love Boat. No entanto, ele também estava, o tempo todo, trabalhando com seriedade, experimentando com as possibilidades da arte abstrata. O que a exposição prova é que suas produções finais, as parcerias com Basquiat e Francesco Clemente, sua exploração da religiosidade, são muito melhores do que as pessoas imaginavam”, diz o principal crítico de arte da revista New York, Jerry Saltz.

Abstração que, em se tratando de Andy Warhol, tem raízes fincadas na realidade. Lá estão as obras criadas a partir da oxidação da urina humana, um mix de homenagem e bem-humorado diálogo com as obras de Jackson Pollock, a série de sombras, derivadas de fotografias de pôsteres em seu estúdio, e o namoro final com o niilismo fin de siécle na série em acrílico Camouflage Paintings. E também imagens de Ronald Reagan e Jesus Cristo, além das gigantescas reproduções warholianas da Última Ceia de Leonardo da Vinci, mesclada com elementos eróticos. Estas últimas foram todas produzidas em seu último ano de vida.

Um passeio pela exposição – e é bom lembrar que a produção de Warhol no período em questão é muito maior, mais de 1.000 obras catalogadas – não faz com que o visitante abrace sem receio a tese dos curadores de que Warhol realizou alguns de seus trabalhos de maior qualidade em sua última década de vida. Mas não deixa de ser interessante observar a reação de encanto e cumplicidade de adolescentes no museu localizado na região do Brooklyn conhecida desde os anos 90 com Cinturão da Infância, por conta da migração de profissionais liberais de Manhattan para as bordas do Prospect Park (o outro parque público da cidade criado pelos responsáveis pelo Centro Park) em busca de espaço para seus filhos.

“Se há algo singular e pouco explorado na trajetória de Andy é sua ligação com os adolescentes. Tinha 14 anos quando conheci Andy, no dia em que saía de uma instituição penal para adolescentes, escoltada por meu pai, o também artista plástico Al Hansen. Quando Andy ouviu a história disse simplesmente: temos que fazer um filme sobre isso! E assim entrei para a Facotry”, conta Bibi Hansen, uma das protagonistas de Prison, juntamente com Edie Sedgwick.

Little Joey, por sua vez, trabalhou com o artista desde os 13 anos e viu, da sala de controle do estúdio da rua 47, o nascimento do primeiro e hoje clássico disco do The Velvet Underground. “Uma de minhas funções era ir à casa de Andy e acordá-lo todas as tardes. Havia algo absolutamente mágico para os mais jovens, o de ser tratado como alguém da equipe, não uma criança. Tudo era muito respeitoso, mas também inclusivo”, lembra. “Há um motivo pelo qual chamávamos aquele clube de Factory (fábrica) e não de Party (festa). Ele é a ética de trabalho de Andy. Ele não era, jamais, uma pessoa que passava o dia sentado fazendo poses tentado parecer interessante. Ele era interessado em inúmeros assuntos, ele deixava seu interlocutor passar todas as informações que ele queria. E ele prestava a maior atenção. Ela era, no sentido mais exato do termo, um artista engajado”, diz Bibi Hansen.

A solidão e as drogas também aparecem constantemente nas recentes evocações a Warhol. Todos falam abertamente de sua dependência química (tomava anfetaminas regularmente) e da obsessão em perder peso, refletida no consumo intenso de inibidores de apetite. Na conversa em torno de The autobiography and sex life, o autor John Wilcock lembra que certa vez perguntou a Sam Green, responsável pela a primeira individual de Warhol em um museu norte-americano, figura-chave na explosão do mito da arte pop, se considerava o camaleão do pop um amigo. “Bem, ele olhou para mim, fez uma pausa grávida e me disse: mas, vem cá, você já ouviu falar de alguém que se considera amigo de Andy?”, conta o jornalista.

Quarenta anos depois da explosão da Factory, é impossível não notar que suas mitológicas criaturas envelheceram sem perder o frescor dos late sixties. E que, para elas, a regurgitação da arte da esfinge de Manhattan, presente como nunca nas páginas dos diários em decadência da zona norte do mundo, é mais natural do que se possa parecer. Se arte engajada não é exatamente o que vem à mente quando se pensa nas séries da sopa Campbell, nas icônicas reproduções do rosto de Marylin Monroe ou na figura semi-patética das festas no Studio 54, as obras produzidas na década de 80 por Warhol revelam mais, apontam os santos mundanos do panteão da Factory, de suas posições políticas, de suas relações com a religiosidade (Jerry Saltz enfatiza que o filho de imigrantes eslovacos foi criado na igreja ortodoxa grega e ia à missa todas as semanas no fim da vida) e de sua condição homossexual, do que todo o escopo de sua produção anterior. Não se pode negar que é de Warhol, sempre interessado em mentiras sinceras e finalmente liberto do estrangulamento da crítica, o sorriso derradeiro.

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