Eduardo Graça

Cultura

Quizomba na Broadway

“Mas como é que vivi metade da minha vida sem nunca ouvir falar de Fela Kuti?”. Oito anos depois de se indignar com a própria ignorância, o produtor Steve Hendel comemora as 11 indicações ao prêmio Tony, o Oscar do teatro norte-americano, cuja festa acontece neste fim de semana, com a constatação óbvia dos que passam pela Broadway: Fela! é o musical do momento e o espírito do criador do afro-beat nunca esteve tão presente nas principais capitais do planeta. Em Londres, o diretor Steve McQueen (cujo polêmico Hunger passou na mais recente Mostra São Paulo de Cinema) está pré-produzindo uma cine-biografia do homem que em certo momento contou com 27 mulheres, todas vivendo juntas na mesma casa. O tom do filme, de acordo com os executivos da Focus, o braço da Universal responsável pela produção, será mais político do que o do musical. A narrativa pós-colonialista africana trazida pelo astro nigeriano, morto em 1997 por complicações de saúde caudadas pela AIDS, curiosamente volta a encantar o público na Europa e nos EUA no momento em que experiências democráticas na África do Sul, no Malawi e na Libéria parecem diminuir a desatenção da grande mídia para com o continente negro.

Em Manhattan, quem se dirigir para a rua 49 encontrará o palco do Eugene O’Neill virado de pernas para o ar. Menos um teatro e mais um clube de funk africano, uma reedição do lendário New Africa Shrine, tal qual na Lagos dos anos 70, a quizomba imaginada por Hendel recebeu do New York Times o melhor dos elogios. O temido Ben Brantley disse que “nunca se viu nada parecido na Broadway” e se espantou: “mas como é que não há gente dançando nas ruas do Theater Distric ao fim do espetáculo”?

Em Fela!, a platéia é convidada a cantar, rebolar, dançar, rir, chorar e se deslumbrar com as muitas vidas, as muitas mulheres, os muitos deuses e a ética una de Fela Anikulapo (Ransome) Kuti. Na utópica Kakaluta Republic, governada pelo Presidente Negro, a esperança pode até não vir das antenas de tevê, mas chega, toda serelepe, através da coreografia de Bill T.Jones e das vozes poderosas dos dois atores que se revezam na pele de Kuti –  Sahr Ngaujah, cuja família é de Serra Leoa, e Kevin Mambo, com raízes no Zimbábue. Ngaujah é a voz do CD com a trilha sonora do espetáculo e Mambo aparece nas faixas vendidas avulsas no mercado americano na loja virtual iTunes.

Ngaujah foi quem iniciou a trajetória vitoriosa de Fela!, com as primeiras apresentações do musical em um espaço alternativo na Rua 37. Um de seus trunfos, desde o início, foi o entrosamento com o grupo Antibalas Afrobeat Ochestra, do Brooklyn, seguidores fiéis das emblemáticas bandas de Kuti – Koola Lobitos, Nigeria 70, Afrika 70 e Egypt 80. Como não poderia deixar de ser, a cozinha do show é parte essencial de Fela!, exatamente como é impossível imaginar as emblemáticas gravações de Fela entre 1965 e 1979 sem a percussão e a direção musical inventiva de Tony Allen.

O pulo da cena alternativa para a Broadway se deu com o auxílio luxuoso de nomes de peso do showbizz americano. O ator Will Smith e a estrela do rap Jay-Z entraram como produtores associados da versão apresentada na Broadway, mas não transformaram um espetáculo essencialmente subversivo em algo mais maquiado para o mainstream. A febre Fela! levou à ressurreição do selo alternativo Knitting Factory, que iniciou no fim do ano passado a reedição de todo o catálogo do mestre dos sopros nigeriano, com a recuperação das capas e encartes originais de cada disco. Em recente entrevista, o diretor do selo, Brian Long, disse que não há dúvida alguma de que Kuti está fazendo pelo afro-beat o que Bob Marley fez pelo reggae nos EUA e na Europa há três décadas. “Também houve um primeiro revival nos anos 90, logo após a morte de Fela, estimulada pelo mundo club. Na década passada foi a vez do rap se identificar com seu estilo de vida anti-autoritário, que o legitima entre os hip-hoppers”, acrescenta.

Um dos prazeres de se reencontrar com Fela! no Eugene O’Neill é a possibilidade de comunhão com personalidades retratadas no palco e que surgem na platéia, emocionadas, acompanhando uma parcela de sua trajetória sob a luzes da Broadway. No dia em que a reportagem do Valor se juntou ao coro africano, dois dos filhos de Fela, Kunle e Seun Kuti, dançavam na fileira ao lado, como se fossem fiéis anônimos do culto feliz do showman africano. Em uma sessão mais recente, foi a vez de as irmãs Rezende, a poeta Maria e a cineasta Júlia, dançarem com a ativista Sandra Isidore. A voz na gravação de Upside Down, do disco homônimo de Fela Kuti & Nigéria 70, foi Isidore quem apresentou a Kuti a biografia de Malcom X e o aproximou tanto do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA quanto do grupo radical Pantera Negra, fundamentais para sua formação política.

“Quando ouvi as músicas todas de seu catálogo, prestei atenção nas letras e me deparei com um outro tipo de indignação – como é que Kuti jamais foi consagrado nos EUA? Sua história é das mais emblemáticas do século 20, retrata o comprometimento de um artista com seu país, seu público, sua gente, e fiquei completamente obcecado em levá-la para os palcos”, conta Hendel. Em Bill T.Jones, o coreógrafo responsável por Blind Date e Still/Here, ele próprio portador do vírus da AIDS, o produtor encontrou o parceiro disposto a combinar elementos cênicos – desenho de cena, figurino, projeções de vídeo, texto e música – com o objetivo de quebrar o muro entre o performer e seu público, exatamente como pregava Kuti. É o que T.Jones chama de “teatro visceral”.

“Nossa ideia é que a audiência se interesse por Fela e saia pensando sobre sua vida, sobre o colonialismo, a música nigeriana, e também aprecie a forma não-linear de se contar esta história. Que pense como nossa educação e exposição sobre a cultura africana é monumentalmente limitada e míope. Em nossas pesquisas, descobrimos que noventa e cinco por cento dos consumidores de música nos EUA não teve qualquer contato com o catálogo musical africano. Isso é um crime!”, diz Hendel. O produtor James Schamus, da Focus Pictures, atmbém quer multiplicar os fãs de Kuti,  através de seu filme. Em entrevista ao britânico Guardian ele diz que o africano é “provavelmente o artista pop com maior poder de influência global nos últimos cinqüenta anos depois dos Beatles”.

Exageros à parte, não há dúvidas de que a vida de Kuti foi bem mais trágica do que a dos quatro meninos de Liverpool. Um ano depois de Sandra Isidore gravar na Nigéria Upside Down, cerca de mil soldados da ditadura de Olusegun Obasanjo invadiram a Kalakuta Republic, estupraram várias mulheres que viviam no refúgio-símbolo da contra-cultura africana e jogaram da janela do segundo andar a mãe do artista, a intelectual Funmilayo Ransome Kuti, de 77 anos, renomada ativista anti-colonialista, que morreu por conta da queda. A cena, reproduzida no palco do O’Neill, é das mais impressionantes de Fela!.

Trinta e três anos depois, o cenário político no país dos Kuti não é exatamente alentador. Em novembro, o presidente Umaru Musa Yar’adua, eleito em 2007 em meio a acusações de fraude, foi se tratar na Arábia Saudita por conta de problemas cardíacos e a população não teve qualquer acesso a seu estado de saúde. Com sua morte, pouco depois de retornar ao país, foi sucedido pelo vice-presidente Goodluck Jonathan, cuja mulher já foi indiciada pela Justiça por lavagem de dinheiro.

Femi Kuti – uma estrela da música internacional por seus próprios méritos – e sua irmã Yeni enfrentaram a fúria do atual governo, que tentou fechar o novo New Afrika Shrine, por eles gerenciado, parte de um bota-abaixo nas áreas mais pobres de Lagos. Em uma entrevista no início do ano ao The Independent britânico por conta da reabertura do quartel-general dos Kuti, em Lagos, Femi lembrou que tinha 12 anos quando seu pai começou sua pregação política. “Hoje sou um senhor de 48 anos e a situação na Nigéria não melhorou nem um pouco”, disse.

Enquanto outros países do continente apostam em projetos ambiciosos, como a política de reconciliação nacional da África do Sul, a redemocratização da Libéria e o movimento constitucionalista do Malawi, a Nigéria segue dependendo do petróleo e imersa em conflitos regionais e religiosos. Do repertório de Kuti, canções de protesto como International Thief Thief e Zombie continuam tristemente atuais.

Femi não sabe se a bobmarleyzação de seu pai é algo positivo. “Talvez os fãs se interessem não apenas pelo ritmo, mas pela história. Talvez eles queriam saber mais deste país rico em petróleo, mas onde o povo não tem acesso à eletricidade. Fico feliz em saber que Fela! é um sucesso na Broadway, mas o mais importante seria o musical vir para cá, para o Shrine, que, para nós, é mais importante do que a Broadway. Ainda não vi o espetáculo e só o farei quando ele vier para cá, quando ele fizer parte de fato da luta pela emancipação africana”, afirmou. Ele também acha graça da elite africana viajando para Nova York e, a partir do segundo semestre, Londres e outras capitais eurpéias, afim de conferir Fela! nos palcos chiques das grandes metrópoles do planeta. “Eles querem ouvir o Fela tocando para eles? Tudo bem, mas ele continuará dizendo, em suas músicas, que eles são todos uns grandes picaretas”, disse.

Para Steve Hendel, só existe um outro lugar, além da Nigéria, em que clássicos como Water Gets No Enemy ganhariam amplidão semelhante. O segundo país com maior população negra do planeta, onde as raízes iorubás, tão caras a Fela, também estão vivas. “Nosso sonho é levar Fela! ao Brasil. Além da presença negra, há o fato de arte e cultura terem uma força orgânica, vista em poucos cantos do planeta. Imagina o que seria para nós apresentar Fela! no país que teve a coragem e a sapiência de ter um artista da estatura de Gilberto Gil como ministro da Cultura?”.

No Brasil, a biografia This Bitch of a Life, escrita pelo professor Carlos Moore, chefe de pesquisas da Escola de Estudos para Pós-Graduação da Universidade das Índias Ocidentais, em Kingston, Jamaica, está em processo de tradução pela editora mineira Nandyala. A ideia dos organizadores é que o ministro Gilberto Gil assine o prefácio do livro. E o Fela Day, realizado pela primeira vez no Brasil no ano passado, volta a acontecer em outubro com uma série de atividades em várias capitais do país. Nos dois lados do Atlântico, a música e as idéias de Fela Anikulapo (Ransome) Kuti seguem mais vivas do que nunca.

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Pequeno roteiro do pop africano

Quem sentenciou foi a “Rolling Stone” americana: a maior estrela da Broadway é sexy e está morta. No rastro de “Fela!”, artistas africanos tomaram de assalto o verão nova-iorquino e o relançamento de toda a discografia do Black President animou selos independentes a pôr no mercado compilações bem sacadas de diversos ritmos e estilos. Segue uma amostra de pérolas da música africana de fácil e médio alcance para os brasileiros.
Na área de shows, neste mês se apresentam em Nova York o senegalês Baaba Maal, além da Tinariwen (genial banda tuaregue do Mali). Em julho é a vez do rapper Blitz the Ambassador, que faz a ponte Brooklyn-Gana; da estrela de “Fela!”, Sahr Ngaujah; de Femi Kuti com a Positive Force; dos congoleses do Konono nº 1; do cantor folk senegalês Omar Pene; da bela Chiwoniso, do Zimbábue; da banda mais africana do Brooklyn, o Antibalas; do mestre do “ngoni” (espécie de ancestral do banjo) Bassekou Kouaté, do Mali; e da eletrônica do Burkina Electric.

Entre os discos, a coletânea dupla “Best of the Black President” é ótimo primeiro contato com a obra de Fela Kuti. A versão em DVD inclui imagens raras dos anos 70 e 80 e entrevistas, oferecendo um belo contexto da Nigéria pós-independência (1960) até os anos finais do pai do afro-beat, na década de 90. Já “Confusion” (1975) o traz em estado psicodélico. O reverb na sua voz aumenta o clima fantástico do álbum e funciona como um comentário à confusão da Nigéria pós-colonial.

Outro grande do pop nigeriano é King Sunny Adé, pai da “juju music”, mix de dance music e cordas tradicionais africanas que ganhou o mundo como afro-pop. É de 1982 sua obra-prima, “Juju Music”, com a African Beats.

Há, ainda, a “Nigeria Special”, série da Soundway Records, com destaque para o “Nigeria Rock Special”, com o melhor garage rock africano, como BLO, Mono Mono e Action 13. É psicodelia com swing e batuque africano, originada da parceria de Ginger Baker, do Cream, com africanos, primeiro na banda Airforce e depois com Kuti, que em 1971 gravou o arrebatador “Fela with Ginger Baker Live!”. (EG)

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